Em Delmiro Gouveia, o Cortejo do Bulba encontrou uma cidade que não precisou caminhar para encontrar a cultura. Foi a cultura que caminhou até ela.
No último sábado (26), o segundo cortejo do Festival Primavera Cultural percorreu ruas do município sertanejo, levando música, personagens, folguedos e cores para perto de quem estava nas calçadas, nas portas de casa e nas esquinas. Crianças chamaram os amigos, moradores esperaram a passagem e, pouco a pouco, o cortejo se transformou em uma espécie de procissão cultural, em que a arte seguia ao encontro do público.
A passagem por Delmiro Gouveia foi também um reencontro com histórias e afetos. Para Anderson Barros, diretor de projetos e idealizador do Primavera Cultural, a escolha da cidade para integrar a rota do festival nasceu de uma relação pessoal com o município.
Anderson viveu em Delmiro Gouveia entre 2011 e 2016, período em que estudou na Universidade Federal de Alagoas e teve os primeiros contatos mais profundos com o audiovisual, a cultura de base, as comunidades e o artesanato produzido na região.
“Eu até brinco que lá foi o local que me fez enveredar de fato para trabalhar com a cultura”, conta.

Foi dessa memória afetiva que surgiu a ideia de incluir Delmiro na rota do Primavera Cultural. Mas o vínculo pessoal encontrou também uma cidade com uma cena cultural própria e uma produção musical que ajudou a definir parte da programação.
Para a capacitação realizada pela manhã, o festival convidou Winicius Araújo, o DJ Wini, que conduziu a formação “Introdução à discotecagem: Da curadoria à pista de dança”. A escolha levou em consideração a força da produção musical e da cena eletrônica no município.
A atividade que antecedeu o cortejo foi pensada como uma oportunidade para que artistas e fazedores de cultura locais pudessem transformar conhecimento em novas possibilidades de criação e atuação.
Para Wini, a experiência de integrar a itinerância como formador mostrou justamente a importância de aproximar os processos de formação das comunidades.
“Através dos processos de formação, nas interações e diálogos mais próximos das comunidades que acontece a manutenção e fortalecimento da cadeia cultural”, afirma.

Segundo o DJ, capacitar novos profissionais e formar novos públicos também significa abrir caminhos para que artistas encontrem novas possibilidades dentro de seus próprios territórios.
“É com a capacitação de novos profissionais e formação de novo público que podemos pensar a promoção de novos horizontes para artistas, como estímulo visando um território com uma atuação cultural cada vez mais fértil, possibilitando então a geração de novos frutos”, completa.
A cultura na esquina de casa
Se na Ilha do Ferro o Bulba encontrou uma cultura profundamente marcada pelo artesanato e pelas manifestações próprias do povoado, em Delmiro Gouveia o encontro aconteceu de outra maneira.
O cortejo já sabia que não seria necessariamente acompanhado por uma multidão caminhando atrás dos personagens. E foi justamente isso que tornou a experiência particular.
“Várias pessoas estavam nas esquinas, nas frentes de casa, nas suas varandas, esperando que a gente passasse. Então, acabou não sendo muito como um cortejo, mas sim como uma procissão em que a cultura estava indo em direção às pessoas”, descreve Anderson.
Brincantes, músicos e o próprio Bulba interagiram com quem estava pelo caminho. A distância entre artista e espectador praticamente desapareceu. A rua virou palco, a varanda virou arquibancada e a chegada do cortejo se transformou em acontecimento para quem estava ali.
Entre os artistas que deram vida aos personagens estava Hyago Teixeira Santos, de Craíbas, que interpreta o Fogo Corredor. O artista transita por diferentes linguagens, entre dança, teatro, artes cênicas e artes marciais, e encontrou no personagem um espaço de liberdade e expressão.

“É muito, é você ficar à vontade ali, você pode fazer, ser bem expressivo no que está fazendo. É muito preenchedor estar fazendo esse papel”, conta.
Para Hyago, estar nas ruas levando essas manifestações é também uma forma de fortalecer uma cultura que muitas vezes ainda precisa disputar espaço.
“Fazer cultura no Brasil, principalmente aqui em Alagoas, não é nada fácil. E por isso mesmo, ter um evento, um festival desse tamanho, fortalecendo a arte da nossa região e mostrando a identidade daqui mesmo, é algo fantástico”, afirma.
O artista destaca ainda o papel do festival na aproximação do público com histórias e manifestações que nem sempre chegam a todos.
“Isso leva nossas histórias e leva ao conhecimento que pouca gente tem acesso por aqui. Eu acho isso de extrema importância, esse acesso à informação, à cultura local.”
Um estandarte conduzido por muitas histórias
No meio do cortejo, o estandarte do Primavera Cultural também carregava uma história de Delmiro Gouveia. Quem o conduziu pelas ruas foi Hanna Valona, artista drag, quadrilheira, aderecista e maquiadora, que também foi nomeada rainha da Parada LGBTQIA+ do município em 2026.
A relação de Hanna com a cultura começou ainda nos anos 2000. Em 2006, venceu o concurso Miss Delmiro Gay e, desde então, construiu uma trajetória que atravessa diferentes linguagens e manifestações culturais. Na dança, passou por quadrilhas juninas e chegou a criar seu próprio grupo. Também atua na produção de adereços, chapéus, tiaras e elementos para bandas, fanfarras e apresentações carnavalescas.

O convite para participar do Cortejo do Bulba veio como mais uma possibilidade de experimentar a cultura em movimento. “Participar do cortejo com o Bulba foi uma experiência incrível. Veio o convite e eu não pensei duas vezes. Eu gosto sempre de estar participando dessas coisas culturais”, relata.
Hanna conta que se sentiu acolhida pela equipe e que a experiência já deixou vontade de repetir a participação.
“Foi maravilhoso participar do cortejo. Espero participar outras vezes, se tiver oportunidade quero sim participar. Porque eu gosto. Estou muito ligada a essa área cultural, gosto de participar de tudo.”
Sua presença também representa uma das ideias que atravessam o Primavera Cultural: fazer com que o festival encontre, em cada município, artistas e fazedores de cultura que já movimentam seus próprios territórios.
Um território de encontros
Com cerca de 55 mil habitantes, Delmiro Gouveia é o município mais populoso do semiárido alagoano e ocupa uma posição particular no mapa do estado: é o único município de Alagoas que faz divisa com a Bahia, além de também fazer fronteira com Sergipe e Pernambuco.
A cidade carrega uma identidade fortemente ligada à história industrial do Sertão nordestino e ao pioneirismo energético da Usina de Angiquinho, além de manifestações populares e expressões culturais que ajudam a construir sua identidade.
É nesse território de encontros, entre estados, histórias, influências e linguagens, que o Primavera Cultural deixou sua segunda marca.
Para Anderson, a própria característica universitária de Delmiro Gouveia, que recebe pessoas vindas de diferentes regiões do país, contribuiu para a escolha do município.
“É uma cidade universitária, que recebe influência de várias pessoas de cantos diferentes do Brasil. A gente pensou, de fato, em Delmiro ser uma das primeiras cidades para poder absorver também esse olhar dessas pessoas”, explica.
A realização do cortejo contou com o apoio da Secretaria de Cultura de Delmiro Gouveia e com a articulação do produtor cultural e músico Caio Praças, que atuou como agente cultural local e ajudou a construir as pontes necessárias para a chegada do projeto à cidade.

O Bulba segue viagem
A passagem por Delmiro Gouveia reafirma o propósito de um festival que percorre Alagoas sem apagar as particularidades de cada lugar. Ao contrário: a ideia é chegar, ouvir, encontrar e deixar que cada território participe da construção do próprio cortejo.
O Festival Primavera Cultural tem como homenageado desta edição Mestre Biribinha, nome artístico de Teófanes Silveira, Patrimônio Vivo de Alagoas e reconhecido pela Funarte como Mestre das Artes Brasileiras. O artista está presente na identidade do projeto por meio de elementos como o mascote, o estandarte repaginado e o Mastro Solar, que recebe, a cada parada, uma pequena lembrança produzida a partir da memória artística de cada município.
A cada cidade, o Bulba vai deixando uma marca e levando outra consigo. Em Delmiro, levou música, personagens, formação e festa. Em troca, encontrou artistas, moradores, memórias e uma cidade que abriu as portas para ver a cultura passar.
Por algumas horas, as ruas ganharam outros sons, as esquinas viraram pontos de encontro e crianças esperaram, curiosas, pela chegada dos brincantes.
Depois da Ilha do Ferro e de Delmiro Gouveia, o Bulba segue viagem. E leva consigo não apenas a música e os personagens do cortejo, mas também um pouco das histórias que encontra pelo caminho. A próxima parada é no município de Penedo, dia 10 de outubro.
Fotos: Eduardo Dewis







