É um clássico entre os biólogos estudiosos da Evolução o texto escrito por Charles Darwin, em 1856 - três anos antes do lançamento de "A Origem das Espécies"-, e enviado a Joseph Hooker:
- Que livro o capelão do demônio poderia escrever sobre as deselegantes, perdulárias, disparatadas, baixas e horrivelmente cruéis ações da natureza!
O sempre manso e elegante cientista, pai da Teoria da Evolução, bem que poderia ter usado a expressão carnificina, e em nada estaria equivocado. Quase 170 anos depois de publicado o livro que mudou a nossa compreensão sobre a vida, outro grande da Biologia, Richard Dawkins, cientista e polemista, escreveu o maravilhoso "O capelão do Diabo". Ele nos ajuda a entender Darwin, além de nos trazer os avanços e os novos conhecimentos sobre a Seleção Natural.
Outro contemporâneo de Dawkins, Stephen Jay Gould, por sua vez, trata com humor e sagacidade o texto de Darwin. Em um dos seus ensaios, publicado em "Os dentes da galinha", Gould narra a tentativa, que hoje parece risível, dos adeptos da teologia natural - com grande aceitação no século 19 até o início do século 20 - de encontrar a "benevolência divina" nas mortes sangrentas que se repetem exaustivamente na natureza. William Buckland, um dos expoentes da teoria, escreveu no seu tratado sobre o tema:
- O destino da morte pela ação dos carnívoros, como término natural da existência animal, parece, pois, no seu resultado principal, ser uma dádiva caridosa; ela subtrai muito do somatório da dor universal; abrevia e quase anula, para todas as criaturas irracionais, o sofrimento da doença, dos ferimentos causados por acidentes, da decomposição prolongada e impõe limites tão salutares ao excessivo aumento do número de indivíduos, já que os suprimentos de comida se mantêm constantemente, em devida proporção com sua demanda.
Estava, portanto, consignado o "bem" na morte atroz da presa que o leão tomou como alimento para a sua necessária sobrevivência. E aponta Jay Gould com sabedoria: não há na Natureza o bem e/ou o mal - ela é amoral, e assim devemos entendê-la. Segue o cientista norte-americano, um dos principais divulgadores da Ciência em todos os tempos (fazia uma belíssima dobradinha com Carl Sagan, como ele, abatido pelo câncer):
- A moral é uma disciplina para filósofos, teólogos, estudiosos das humanidades, na verdade para os seres pensantes. As respostas não serão simplesmente encontradas na natureza... O mundo, em seu estado factual, não nos ensina como, com nossa capacidade para o bem e o mal, deveríamos alterá-lo ou preservá-lo da maneira mais ética.
Assim como Dawkins, Gould - e eles mantiveram um embate intelectual onde o respeito e a honestidade superaram sempre as divergências, estas mantidas - tinha a mesma definição em relação, com a licença da má palavra, ao ídolo de ambos: darwinistas, sim; darwinianos, não. E a última expressão nasceu contaminada pelo mau uso da Teoria da Evolução e o seu ponto central - a Seleção Natural.
Para eles, assim como para Darwin, até pelas conquistas da Humanidade em sua trajetória de 200 mil anos, há sim, no mundo, o direito à vida para os mais "fracos". Entretanto, Ernst Haeckel, cientista alemão, deu a Hitler e seus seguidores argumentos teóricos para justificar a eugenia - eliminação da descendência dos menos capazes ou incapazes -, "baseados" na Seleção Natural. Que infame!
Contemporâneo do gênio inglês, conhecido como o "buldogue de Darwin", Thomas Henry Huxley já havia resolvido esta equação - o bem versus o mal - no seu ensaio "Evolução e ética", lá atrás, em 1893:
- A prática daquilo que é eticamente melhor - que chamamos de bondade ou virtude - supõe uma linha de conduta que, em todos os sentidos, é oposta àquela que leva ao sucesso na luta cósmica pela existência. Em vez da brutal autoafirmação, ela requer a autorrepressão; no lugar de afastar para o lado, ou pisotear todos os competidores, ela exige que o indivíduo não só respeite, mas também ajude seus semelhantes. Ela repudia a teoria gladiatorial da existência.
Algumas perguntas, no entanto, teimam em não conseguir respostas a contento:
- Por que a humanidade, mesmo depois que tudo que passamos e sofremos, ainda se sente atraída por gente perversa, que prega o ódio e a violência contra o outro, o diferente?
- O sucesso das redes sociais é devido ao fato de que seus criadores sabem usar os sentimentos humanos mais primitivos contra nós mesmos?
Talvez um artista, o maior deles, já tenha nos apontado um caminho definitivo para entender a grande lição de Darwin:
"Não sois bichos; homens é que sois".
