Alagoas completou 209 anos de Emancipação Política na última quarta-feira (16), mas parte dos problemas enfrentados atualmente pelo estado tem raízes que atravessam esses mais de dois séculos de história.
Concentração de terra e renda, pobreza, conflitos envolvendo territórios indígenas e dificuldades na preservação da memória negra estão entre as questões que ajudam a entender como o passado ainda se reflete na realidade alagoana. Para discutir o que mudou, e o que permanece, desde a separação de Pernambuco, em 1817, o CadaMinuto ouviu historiadores, economistas e pesquisadores sobre a formação política, econômica e social de Alagoas.
Para o historiador Cláudio Jorge, a emancipação não foi resultado de uma mobilização popular. A separação ocorreu em meio à Revolução Pernambucana e, segundo ele, esteve relacionada a uma decisão política da Coroa Portuguesa para punir Pernambuco. "Na verdade, o que aconteceu foi uma emancipação pelo alto, sem a participação popular efetiva e social", analisa o historiador.

Cláudio Jorge explica que o episódio garantiu autonomia político-administrativa ao território alagoano, mas não significou uma mudança imediata nas condições de vida da população. Segundo ele, enquanto a emancipação política é celebrada oficialmente, "a emancipação social do povo alagoano ainda precisa ser conquistada".
Concentração de renda e terra atravessa séculos
Na economia, parte dos problemas atuais também é relacionada à formação histórica do estado, marcada durante séculos pela monocultura, pelos grandes latifúndios e pela concentração de riqueza.
O economista e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Cícero Péricles, avalia que essa estrutura ajuda a explicar a persistência da pobreza e os indicadores sociais negativos registrados em Alagoas.

"Os reflexos da concentração de renda e de terra desde a origem da colonização estão refletidos, muito efetivamente, na pobreza da nossa população e nos indicadores sociais negativos, que travam a nossa capacidade de desenvolvimento", afirma.
Para o economista, aumentar a produção e movimentar a economia não é suficiente para superar problemas históricos. O crescimento, segundo ele, precisa ser acompanhado pela melhoria das condições de vida e pela ampliação do acesso a direitos como saúde, educação, moradia e segurança.
"Só quando o crescimento vier atrelado ao desenvolvimento social é que teremos rompido definitivamente com o século XIX e também com o século XX, cujas marcas continuaram fortemente presentes", pontua.
O sociólogo e professor Lúcio Verçoza também aponta a monocultura da cana e a concentração de terras como elementos fundamentais para compreender a formação social de Alagoas. Ele recorre a um dito popular da Zona da Mata, "Todo canavial tem seu segredo", para chamar atenção para uma história marcada pela escravização, pelo poder dos grandes proprietários e pela expulsão de trabalhadores do campo para as periferias das cidades.

Segundo Verçoza, essas marcas ajudam a explicar desigualdades que atravessaram gerações. Ao olhar para a trajetória da população trabalhadora do Leste alagoano, afirma, aparecem os efeitos do "poder de mando senhorial, do latifúndio, da espoliação da terra, da natureza e do trabalho".
Para o sociólogo, por isso, a autonomia conquistada em 1817 teve limites que ainda ajudam a compreender o estado atual. "A emancipação política oficial não significou uma emancipação real de Alagoas", afirma, ao relacionar a permanência dessa estrutura à "miséria de muitos e à riqueza de poucos, de pouquíssimos".
Povos indígenas ainda enfrentam disputa pela terra
A situação dos povos indígenas é outro ponto levantado pelos pesquisadores ao analisar os 209 anos de Alagoas. O sociólogo e pesquisador indígena Amaro Hélio afirma que a emancipação política não representou independência para os povos originários que já ocupavam o território.

"A independência, na perspectiva dos povos originários, nunca existiu. O que eles tiveram ao longo da história foi um processo de exclusão e aprisionamento do seu modo de vida, passando pela escravização e pela tutela compulsória nos aldeamentos", explica.
Para Amaro Hélio, uma das principais questões ainda pendentes é o acesso à terra. Comunidades indígenas de Alagoas continuam enfrentando disputas e insegurança jurídica envolvendo seus territórios. "A democracia e a independência só vão existir quando houver, de fato, resolvido o problema da terra para os povos indígenas", defende.
Violência contra religiões de matriz africana deixou marcas
A história de Alagoas também guarda episódios de perseguição à população negra e às religiões de matriz africana. Um dos principais símbolos desse passado é a Coleção Perseverança, formada por objetos religiosos apreendidos durante o chamado "Quebra de Xangô", ocorrido em 1912, em Maceió.
Naquele período, terreiros foram invadidos e destruídos e objetos sagrados acabaram recolhidos. Parte dessas peças integra atualmente o acervo preservado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL).

"A Perseverança é uma coleção que surge de um evento de violência extrema. As peças viraram uma coleção, à época, no intuito de dizer que foi somente aquilo que restou da religiosidade negra", explica a historiadora Mariana Marques.
Para a pesquisadora, além de preservar as peças, é necessário discutir o contexto de violência no qual o acervo foi formado e ampliar as políticas públicas voltadas à conservação dessa memória.
Mariana também considera insuficientes as medidas adotadas pelo poder público para reparar historicamente as consequências daquele episódio.
"O pedido de perdão feito pelo Estado ficou no papel. Tudo o que conquistamos até hoje vem da própria luta da população negra. Falar sobre esse descaso é mostrar que ainda não temos uma política efetiva de reparação e preservação", conclui.
