“Eu não consigo fazer mestrado, não consigo fazer pós-graduação, não consigo prestar concurso, tudo isso porque eu não tenho diploma”, relata Thaís Florino, que concluiu o curso de Jornalismo na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) no fim de 2025 e, quase um ano depois, em setembro de 2026, ainda aguarda a emissão do documento.
Ela faz parte de um grupo de cerca de 40 estudantes que concluíram o curso, mas ainda não conseguiram colar grau porque as horas de disciplinas eletivas não foram contabilizadas corretamente no Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas (Sigaa), plataforma acadêmica da Ufal.
Segundo os alunos, mesmo após a conclusão das matérias exigidas pela grade curricular, parte dessa carga horária não aparece corretamente no sistema, impedindo a regularização da situação acadêmica e prejudicando o grupo.
Após finalizar a graduação, Thaís foi para São Paulo, onde pretendia iniciar uma pós-graduação e buscar oportunidades na área, mas afirma que a falta do diploma tem impedido novos passos profissionais.
A estudante, que construiu durante a graduação uma trajetória voltada ao jornalismo esportivo, afirma que a ausência do documento também prejudica um dos seus maiores sonhos profissionais: trabalhar na cobertura da Copa do Mundo Feminina de 2027, que será sediada no Brasil.
“Eu queria muito cobrir a Copa do Mundo ano que vem, então é inviável conseguir qualquer trabalho e ter acesso aos estádios sem empresa, sem diploma”, disse.
Além disso, Florino conta que chegou a participar de processos seletivos, mas acredita que a pendência documental influenciou diretamente as seleções.
“Tinha uma vaga que eu queria muito, em uma empresa que iria pagar muito bem. Fui bem em todas as etapas, mas não passei. Tentei falar que eu estava com o diploma pendente, mas não consegui. Fiquei muito chateada”, afirmou.
A situação ganhou repercussão nessa terça-feira (15), após a estudante Eduarda Nascimento publicar um desabafo nas redes sociais em resposta a uma postagem da Ufal que parabenizava alunos pela conquista do Prêmio Sebrae de Jornalismo, na categoria Universitário.
Na publicação, ela celebrou a vitória dos colegas, mas também cobrou uma solução para os estudantes que aguardam a regularização da situação acadêmica. “São dias de meses de espera, enquanto ninguém resolve, ninguém escuta e esses estudantes seguem sem diploma e, em muitos casos, impossibilitados de ingressar no mercado de trabalho”, escreveu.
Os estudantes também relatam dificuldades para obter respostas da universidade. “Eu sinto que as pessoas não estão nem aí pra gente, essa é a verdade. Mandei vários e-mails, meus e-mails nunca sequer foram respondidos”, declarou Thaís.
Entenda o impasse
A situação está ligada à atualização do currículo do curso de Jornalismo e à forma como as disciplinas passaram a ser registradas no Sigaa. Ricardo Coelho, professor e atual coordenador do curso, explica que a situação começou durante a transição entre a matriz curricular de 2015 e 2025.
Segundo ele, a oferta de disciplinas eletivas era limitada e os horários também dificultavam que os estudantes cumprissem a carga exigida.
Em alguns casos, matérias cursadas pelos estudantes não tiveram as horas computadas. Em outros, o sistema registrou disciplinas obrigatórias como se fossem eletivas. Como essas matérias são obrigatórias na grade curricular, elas não podem ser utilizadas também para cumprir a carga horária exigida de optativas.
Também houve estudantes que cursaram disciplinas de outros cursos e precisaram solicitar à universidade a análise para saber se aquelas matérias poderiam ser aproveitadas como eletivas.
“Os alunos procuraram disciplinas por conta própria, achando que seriam compatíveis”, explicou.
A demanda foi encaminhada pela coordenação à Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), setor responsável pela análise e regularização de processos acadêmicos. Segundo Coelho, a Prograd analisou apenas o aproveitamento de disciplinas já cursadas e não regulamentou novas opções de eletivas.
“Era pra ter um processo de equivalência e um outro com novas disciplinas. A Prograd definiu só o de equivalência e não definiu novas disciplinas”, afirmou.
Com isso, a coordenação precisou abrir novos processos para tratar das disciplinas que ainda não haviam sido regulamentadas. O professor informou que essa etapa só foi concluída no fim de agosto. A documentação deve ser encaminhada novamente à Prograd até sexta-feira (18), para uma nova análise.
O coordenador afirma que a demora envolve uma combinação de fatores, entre eles a transição entre coordenações, o registro e a escolha das disciplinas por parte dos alunos e as exigências burocráticas do novo sistema. “É uma sucessão de problemas que aconteceram”, aponta.
Enquanto coordenação e Prograd dão andamento aos processos, os estudantes continuam sem conseguir concluir oficialmente a graduação. “Quem está pagando por todos esses problemas são os alunos. Eu estou muito preocupado”, declarou.
A reportagem procurou a Assessoria de Comunicação da Ufal para esclarecer a situação e saber quais medidas estão sendo adotadas pela instituição. Até a última atualização desta matéria, não houve retorno.
*Estagiária sob supervisão da editoria
