O mundo todo pode estar contra mim, menos eu (o sentido é este).
Para entender um tanto desta frase de Sócrates (o filósofo grego), um dos atalhos seria seguramente uma demorada visita a um presídio. Lá estão inocentes de toda sorte, convencidos de que inocentes são. A alternativa seria a loucura.
Impossível a alguém, seja quem for, brigar com a própria consciência. Quem cometer esta ousadia não terá outro destino que não amargar a mais devastadora derrota. Há caminhos, ensinou Freud, para que o homem que tenha cometido um deslize, um delito, um crime de morte, possa preservar a própria sanidade mental: a isso denominou racionalização.
Mente-se por grandeza, rouba-se por benefício de outros – próximos, é claro -, mata-se em nome da honra ou da sociedade. Ou, ainda, da própria sobrevivência. Que mal haveria nisso se a necessidade fizer o erro virar acerto? Um pouco mais grave é o caso psiquiátrico, ou o psicopata, que anda pelas ruas, trabalha como um cidadão comum e até vira autoridade, com direito a reverências e homenagens.
No filme "A queda", sobre os últimos dias de Hitler, vemos um belo painel de um indivíduo acometido de alguma patologia mental ou simplesmente sentindo o poder lhe fugir por entre os dedos: ele distribui frases cordiais, gestos de amizade, manifestações de fé, ou, simplesmente, desfruta o prazer de pequenas coisas. Mas segue martelando na mente a conspiração de que foi "vítima".
No caso do personagem histórico, os responsáveis pelos males da Alemanha - e dele - eram os judeus e os soviéticos, não importando a ordem. O que valia, sim, era que o seu entorno se convencesse de que Hitler não havia, ele próprio, conduzido um povo a um dos maiores desastres de toda existência humana. A culpa vinha dos inimigos da mesma parcela da humanidade – e dele, por extensão.
Ao final do filme, Hitler vai ao encontro da solução mais radical para os seus problemas - graças à paranoia, que já não lhe permitia que dormisse sem imaginar que, em volta, algum inimigo infiltrado pudesse lhe roubar a vida. Cuidou ele próprio de fazê-lo.
Pode-se apontar aquele desfecho dramático como um ato absolutamente aceitável na cultura oriental. No Japão, por exemplo, seguindo o ritual do seppuku, praticado pelos samurais, o suicídio era a derradeira tentativa de resgate da própria honra - pela vergonha e/ou pelo mal praticado.
Mas o que por aqui se sabe dos orientais?
E, em muitos casos públicos e notórios, o que se sabe de honra?
