Ouvir a voz inconfundível de Vinicius de Moraes declamando os seus versos e cair na gargalhada?
Está maluco, Ricardo!
Pois é, aconteceu na semana que passou.
No som do carro, tocava “O samba da bênção”, gravada inicialmente em 1963 e regravada umas tantas vezes, porque virou um clássico. A graça, assim digamos, estava exatamente no pensamento que me atacou na hora: o que seria do Vininha, nos dias de hoje, dizendo os versos a seguir?
...Uma mulher tem que ter qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão.
Versos machistas, sim, em tempos ainda mais machistas do que os de agora. Não imagino, porém, que “o poeta que viveu como poeta”, no dizer de Drummond, merecesse o desprezo e/ou o cancelamento feminino coletivo pelo seu derramamento datado, ainda que (perdoem-me) bem tocante.
Fato é, e bem sabemos, que Vinícius não tornaria públicos, agora, esses versos, mesmo que os dissesse nos ouvidos da mulher amada (a do momento). Até porque tudo hoje vira razão para uma guerra total. Até lamento, e peço desculpas, sei lá a quem, por ter trazido o autor do “Soneto de fidelidade” para essa arena sem pausa e sem pena.
A questão é que, assim imagino, temos de entender cada obra artística no seu tempo, assim como o artista que a concebeu. Vinícius de Moraes, tenho certeza, não foi um feminicida, e não conheço (já li duas biografias dele) nenhum ato de violência que ele tenha praticado contra uma mulher - nem tentado justificar tal ato com o “veneno do ciúme” ou algo nessa linha.
Pior sorte teve a dupla João Bosco-Aldir Blanc, com a sua “Gol anulado”. Os versos de então (“tirei sem pensar o cinto/E bati até cansar”) não se justificariam em tempo algum, é verdade. Mas lembro apenas que a música, “uma crônica”, segundo os seus excelentes autores, foi gravada por eles em 1976 e regravada, em seguida, pela fantástica Elis Regina.
Claro que a canção não viria a público nos dias que passam. Cada tempo com sua linguagem e seus ensinamentos. Os dois compositores, como eu e como tantos outros da minha geração, aprenderam – Aldir já morreu –, que não de se deve tolerar, nem por brincadeira, a reação do torcedor vascaíno com sua companheira flamenguista (na música).
Mas o sarrafo bateu na moleira de João Bosco, recentemente. E, ao contrário do Chico Buarque, que tirou do seu repertório “Com açúcar, com afeto”, diante da polêmica sobre o machismo contido na canção, “O autor de o bêbado e o equilibrista” defendeu sua “crônica” e avisou que vai continuar a cantá-la. Sei não, mas creio que o cinto referido no verso acima vai vadiar é nas suas costas, se ele assim o fizer.
Tudo isso vira café pequeno quando trazemos ao proscênio o provocador dos provocadores: Nelson Rodrigues. Entre suas tantas obras para o teatro – o autor mais censurado do Brasil -, o tricolor de coração encenou, em 1957, a peça “Viúva, porém honesta”.
(Olha a bala zunindo aí, gente!)
Antes de mais uma morte do encrenqueiro, conto um pouco da peça, uma farsa, assim definida pelo autor e pela crítica da época, que exporia a hipocrisia da sociedade burguesa de então.
O enredo: uma mulher fica viúva muito jovem e, para provar sua fidelidade ao marido, um delinquente juvenil que se foi prematuramente, jurou nunca mais sentar! – exatamente assim. Para resolver o drama, juntam-se o pai da jovem, jornalistas, psicanalistas e até uma cafetina.
Hoje, seguramente, iam sentar mesmo era o pau no autor da obra.
Ele?
Iria adorar, podem crer.
