Éramos dois molecotes, e corria o ano de 1976 quando iniciamos o curso de Medicina - que não terminamos por absoluta falta de vocação, assim imagino. Eu, puxando para preto (não me conformo com essa história de “pardo” - pardo é gato na noite); ele, branco de quem vem de longe do mar, como, aliás, se mantém até hoje.

Encurtando a história, Sidney Wanderley, o “branquelo”, assim como eu, então com vasta cabeleira, tornou-se um dos maiores poetas brasileiros vivos e, vejam só, virou meu compadre. Este ano, dedicou aos nossos 50 anos de amizade o seu belo livro “Philip Glass em Viçosa”, me arrastando, como apêndice, para a sua merecida imortalidade. 

Na pista em frente à Cidade Universitária, onde pagávamos umas poucas matérias – o Hospital Universitário veio depois -, com os polegares para cima, pedíamos carona aos mais abastados.

Eis que parou um veículo, que vinha sem pressa, e logo a porta se abriu nos convidando. Entramos, eu e o meu companheiro de copo e de cruz. Eis que um homem ainda jovem, cabelos pretos em desalinho, nos recebeu com uma expressão de pura cordialidade. Passei para o banco de trás do carro e tive de arrumar a pilha de livros que já ocupava o lugar do carona.

Ele se apresentou:

- O meu nome é Benedito.

Ágil e alguns tons acima (quase aos gritos), o então projeto de autor de versos raros mandou ver:

- Mas será o Benedito!

O bom homem, um tanto espantado, esclareceu: era professor da Ufal, da área de Exatas, e tinha Pontes como sobrenome - era irmão do também conhecido docente de Matemática, de várias gerações, Edmílson Pontes.

A presença dos livros no veículo foi o mote para que a conversa rolasse redonda, com o meu loquaz amigo deixando, ao modo, pouco espaço para nossas frustradas intervenções. Fato é que eu já reconhecia nele uma desenfreada paixão pela literatura alheia, antes mesmo de que a sua se apresentasse ao mundo.

Nunca mais encontrei aquele sujeito tranquilo e bondoso que nos deu carona – ele morreu em 2025. Eram, aqueles, os “tempos tempo dos pardais”, ainda que os carcarás também cortassem os céus, mirando suas presas. Deixo claro que não acho que a humanidade piorou – não é o caso, mesmo. Mas as tais  redes sociais trataram de revelar aquilo que imaginávamos superado, que já havia ficado para trás: o mau selvagem, que Rousseau não viu, continua vivo e perigoso.

O notável para mim, ainda que de pouca importância para o resto do mundo, é que só 50 anos depois daquele agradável encontro com o tímido e gentil professor é que descobri a origem da expressão falada (gritada, seria mais correto) pelo meu dileto amigo Sidney, que a deixou escapar após a identificação do dono do carro. Foi uma descoberta ao acaso, a minha, lendo uma biografia de Guimarães Rosa.

Eis que ela nasceu do encontro do gaúcho Getúlio Vargas com o povo mineiro. Ainda não assumido como ditador, Gegê, em meio à disputa entre os Bias Fortes e os Andradas, que dividiam o poder nas terras das Minas Gerais, decidiu nomear como interventor do estado um nome sem peso político e quase desconhecido: Benedito Valadares, que passou à história do Brasil como o governante que nomeou Juscelino Kubitschek prefeito de Belo Horizonte. Por puro deboche, está posto, o “mineirinho” se saiu com essa: 

- Será o Benedito?

Foi o tal quem deu um empurrão em JK, que começou ali a sua trajetória ascendente e  impressionante que o levou à presidência da República, marcando fortemente a vida dos brasileiros pelos notáveis acertos e estupendos erros – nunca medíocres, no entanto.

Só não dá para dizer quem primeiro usou a expressão e como os mineiros espalharam o clássico "será o Benedito?”.

Aquele, de 1976, pelo menos, era mesmo.