A literatura alagoana ganhou novos ares para além de suas fronteiras. O escritor Guilherme de Miranda Ramos, de 54 anos, venceu a 23ª edição do Prêmio Sesc de Literatura na categoria Poesia com a obra Geografia do Desconforto.

Poeta, compositor e produtor cultural, o autor começou a rascunhar os primeiros versos após ler um texto em uma revista levada para casa pela mãe. A partir dali, o maceioense passou a transcrever o conteúdo diversas vezes, como se aquelas palavras fossem dele.

Ao falar sobre a premiação, o escritor destaca que o reconhecimento abre portas no mercado editorial e permite que a obra chegue a escolas e bibliotecas, além de colocar Alagoas no centro dos debates literários nacionais.

“Quando um alagoano participa de algo assim, é possível validar toda uma cena, provando que a nossa ‘geografia’, por mais ‘desconfortável’ que pareça, possui muita coisa que o país inteiro precisa ler”, afirma.

Ramos também ressalta a união entre os escritores alagoanos, que divulgam e fortalecem os trabalhos uns dos outros. Para ele, o compartilhamento de projetos autorais ajuda a aproximar as obras de diferentes públicos.

“Aos pouquinhos, as pessoas vão se conectando, se conhecendo e, por fim, descobrindo cada vez mais trabalhos autorais alagoanos”, observa.

A geografia do desconforto

Guilherme escreve em diferentes gêneros. Entre suas obras estão os livros infantis Mateu Errante, Mateu Brincante (2015) e Estrela Raivosa (2017), além de Minha Fúria e Outros Demônios (2017), que reúne prosas curtas sobre temas como solidão, tristeza e saudade.

Em Geografia do Desconforto, o autor percorre três territórios — o sangue, o asfalto e o espelho — e conduz o leitor por reflexões existenciais sobre perdas e a busca pela própria identidade.

Para Ramos, a singularidade tem se perdido ao longo do tempo, e a internet contribuiu para acelerar uma espécie de padronização das pessoas.

“O singular se perde justamente nessa fragmentação, quando despimos todas as nossas versões e o medo de que ‘não tenha mais ninguém por baixo’ se torna grande”, conta.

No livro, o desconforto ultrapassa os limites físicos e geográficos. Cada um dos grandes blocos aborda aspectos essenciais da experiência humana, como trabalho, família e saúde mental. A obra também denuncia um sistema que, segundo o autor, “retira a identidade, colocando nosso nome em um crachá”.

No campo familiar, os poemas tratam ainda do apagamento de práticas transmitidas entre gerações e do distanciamento afetivo provocado, principalmente, pelo uso excessivo da tecnologia.

“Penso que tudo é válido, mas precisamos de mais vivências presenciais. Do contrário, já, já, uma ‘pandemIA’ vai assolar o mundo e será ‘cada um por si e Deus contra todos’, como dizia Titãs”, finaliza.

*Estagiária sob supervisão da editoria