"Sai Geg, entra Gag". 

Claro, mais uma tirada do incorrigível Aparício Torelly, o Barão de Itararé, que sofreu a censura e as celas do Estado Novo. Gaúcho como Geg - Getúlio Vargas -, Aporelly tratava no seu "A Manha" da eleição de Eurico Gaspar Dutra, o germanófilo general que sucedeu o ditador - e um dos "inventores" do país chamado Brasil. 

Pois assim foi: recém-defenestrado do poder pelos ventos de liberdade que sopraram no pós-guerra, Getúlio ainda conseguira superar - com Gag - o elegante, cheiroso e encantador brigadeiro Eduardo Gomes.

Não foram fáceis para os brasileiros democratas os tempos do Estado Novo. Uma criação de Geg, com o auxílio do sempre golpista Olympio Mourão Filho, então capitão, que engendrou o Plano Cohen, nome judaico com sabor comunista - tudo o que detestavam os integralistas, que ganhavam corpo cada dia mais nas Forças Armadas naquele ano de 1937. 

O governo constitucional virava uma ditadura, estúpida como todo regime restritivo das liberdades, inclusive física. O Brasil de 1942 - deixando de lado torturas, prisões e mortes nos seus porões - foi privado do humor do Barão, por diversas vezes, e não pôde se deliciar com "O grande ditador", do genial Charles Chaplin - o DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda, não permitiu. 

Mas se de humor e matreirice que queremos falar, Getúlio os tinha de sobra. Não há, na história do país, político mais mineiro que o estancieiro de São Borja - RS. Quando entrevistado, em 1947, por Samuel Wainer, autor da mais honesta autobiografia - "Minha Razão de viver" - de que se tem notícia em terras brasileiras, e ao ser indagado sobre as eleições de outubro de 1950, derramou-se em elogios ao brigadeiro Eduardo Gomes, paixão dos udenistas: 

- Um homem a quem eu apoiaria. Trata-se de uma candidatura natural, uma candidatura lógica. 

Escolheu o adversário a ser batido. Foi em frente ao dizer que "ninguém mais do que Adhemar de Barros – então governador de São Paulo - tem o direito de ser candidato". 

Escolheu o futuro aliado. Ao final da entrevista, avisou: "Eu voltarei!"

 E voltou nos braços do povo, arrastando multidões como o velhinho simpático que dera dignidade ao serviço público, criando o DASP, e a legislação (CLT) que garantiria direitos mínimos aos trabalhadores que não os tinham. 

O "rouba, mas faz", que deu origem à escola que sobrevive até hoje entre os governantes brasileiros, engoliu o anzol. Em março de 1950, Adhemar de Barros voou ao rincão de Getúlio no seu DC-3, alcunhado pelo popular de "boate voadora", pela justificada fama de femeeiro do governador paulista. Ia fechar um acordo de presente e futuro com Vargas. 

Danton Coelho, que viria a ser ministro do Trabalho do novo governo, era das poucas e fiéis testemunhas daquele encontro histórico. Ficavam acertados: Ademar, com seu Partido Social Progressista, o PSP, apoiaria Vargas (PTB) para a presidência naquele ano, e Vargas retribuiria a gentileza nas eleições de 1955 - seria Adhemar na cabeça. 

Ledo e tolo engano. 

Verdade: o PSP emplacou o vice, o inconfiável – o tempo tratou de demonstrar - Café Filho, mas Ademar não veria o que buscou no interior do Rio Grande do Sul. Foi muita conversa, obviamente, até se desenhar o documento final da aliança. Finda a peleja, as assinaturas. Ademar, afoito, foi o primeiro a referendar o que estava escrito. Passou a caneta a Getúlio que, docemente, a colocou na mão de Danton: seria ele, pelos esforços desenvolvidos para a consumação do pacto, quem merecidamente poria o jamegão no papel - que todos assinaram, menos... “Teu amigo me corneou. Um filho da puta, mas não há alternativa: temos que sair juntos”, foi o desabafo, a Wainer, feito pela "raposa" Adhemar de Barros. 

Getúlio havia lhe pregado uma peça, ele sabia. Mais ainda o saberiam Carlos Lacerda e Cia., em 24 de agosto de 1954 – a completar 72 anos. Com um tiro certeiro no próprio peito, Getúlio Vargas tratou de derrotar todos os seus adversários e inimigos. Se mineiro come calado, aquele gaúcho faria do seu silêncio eterno a maior trapaça das que se contam na história política do Brasil.