Dois mundos imersos na extrema vulnerabilidade, unidos por um elo humanitário. Um desses mundos recebe o amparo costurado - literalmente em forma de coração -, personificado em almofadas que amenizam as dores de mulheres em tratamento contra o câncer, geralmente colocadas sob a axila, que aliviam os desconfortos da incisão cirúrgica e um pouco das dores da alma.
Quem fabrica esses objetos está por trás de muros altos e das grades – homens que já estiveram envolvidos em atos de violência, que cumprem pena em uma das unidades prisionais de Alagoas e passam por um programa de ressocialização. Já quem recebe as almofadas enfrenta os impactos físicos e emocional após a retirada das mamas, região brutalmente afetada pelo tipo de câncer mais comum entre as mulheres, sem considerar os tumores de pele não melanoma.
Essa ligação entre realidades tão distintas – presos e mulheres em tratamento contra o câncer – deu frutos na Oficina de Corte e Costura da Penitenciária de Segurança Máxima de Alagoas (PenSM) e fez surgirem objetos que são muito mais do que decoração e tecido: as almofadas de coração. Cerca de 250 itens já foram produzidos pelas mãos dos reeducandos e chegaram a pelo menos duas entidades e a dezenas de mulheres mastectomizadas de todo o estado, que passam por tratamento em hospitais ou em casa.

Almofada terapêutica
“A almofada de coração tem muita importância na vida da mulher que fez a mastectomia, é funcional, é terapêutica. Isso porque a falta da mama desequilibra o corpo e a almofada de coração embaixo do braço equilibra, protege, acaricia, dá conforto”, analisou a advogada e pedagoga Walkyria Lins de Araújo, presidente da Associação Mama Renascer, no dia em que recebeu as doações.
A Associação Mama Renascer – uma das beneficiadas com as almofadas - é uma organização não governamental que luta por igualdade nos serviços oncológicos e dá apoio a mulheres que enfrentam ou enfrentaram um câncer de mama. O projeto acolhe mulheres em tratamento inicial contra a doença em vulnerabilidade social, que moram em Maceió. O atendimento é assistencial, de orientação e apoio.
A ação é inspirada no "Heart Pillow Project", criada nos EUA pela especialista em oncologia Janet Kramer-Mai.

É possível sonhar
O alagoano J.G.S.N, de 32 anos, nunca tinha costurado na vida, mas traz na memória o trabalho da tia que passava horas a fio na máquina de costura. Em janeiro deste ano ele começou um novo ofício, diferente da pesca a que estava acostumado. Na Oficina de Corte e Costura da Penitenciária de Segurança Máxima de Alagoas se sente realizado e planeja um futuro melhor, depois de cumprir a pena.
“Quando a gente ia para a casa dela (da tia), ela sempre estava costurando, consertando roupas e fazendo peças para vender. Cresci vendo a minha tia costurar. Isso me chamava à atenção. Quando me mandaram para cá e me colocaram na oficina de corte e costura foi uma oportunidade boa para mim”, avalia.
Preso desde 2020 e condenado a mais de 20 anos de prisão, além de aprender uma nova profissão, J. conseguiu concluir os estudos dentro da unidade prisional.
“Uso todas as máquinas aqui. Já fiz bermuda, camisa, cueca, coração, fronha, lençol. Quando eu cheguei aqui os meninos já tinham feito quase 200 corações para doação, aí depois ainda fizemos mais. Corte e costura é uma coisa que eu quero levar para a minha vida. Um dia eu quero comprar minhas próprias máquinas e fazer minhas próprias roupas e ter minha marca. Eu acho que vou conseguir empregar mais gente, até da minha família. Hoje eu me sinto privilegiado, porque antes eu não tinha profissão”, comemora o reeducando.
Na Penitenciária de Segurança Máxima de Alagoas, além de estudarem, os reeducandos podem trabalhar na Oficina de Corte e Costura; na fábrica de chinelos; na serigrafia ou mesmo na pirografia (a arte de desenhar e gravar em superfícies — como madeira, couro, cortiça e papel). Além de uma nova profissão, os reeducandos conseguem a remição por trabalho, reduzindo o tempo de sua pena. Esse é um direito do preso. Conforme o Artigo 126 da Lei de Execução Penal, a cada 3 dias de trabalho, o apenado reduz 1 dia de sua condenação
M.V.S está preso desde janeiro de 2024 e trabalha na Oficina de Corte e Costura há dois meses. Quando soube que as almofadas que ajudou a produzir chegarão às mulheres em tratamento contra o câncer, o reeducando comemorou ser essa uma oportunidade de poder contribuir para aliviar a dor delas.
“É uma experiência muito boa, a gente tem uma oportunidade de aprender uma profissão aqui dentro e ajudar a nossa família lá fora. Sou muito grato a Deus por tudo isso. Aqui temos bom tratamento e boas oportunidades. Já penso em montar meu próprio negócio e é uma oportunidade de reconquistar a confiança da minha família novamente. Eu me sinto como um trabalhador”, explica o reeducando ao avaliar a oportunidade de trabalhar na Oficina de Corte e Costura do presídio de Alagoas.

Força e fé
A microempresária Aldeci Martiliano Gracek, 53 anos, recebeu no ano passado uma das notícias mais difíceis da vida: tinha câncer de mama. Entregou nas mãos de Deus e resolveu se tratar a doença.
“Foi um abalo grande, mas fui fazer o tratamento que tinha que fazer. Eu estava com sintomas. Tive uma dor insuportável como se tivessem quebrando minhas costelas. Fui ao médico e fiz raios-X, pediram tomografia pois achavam que eu estava com alguma coisa no pulmão, tuberculose, algo assim. Mas o câncer ficou agressivo”, lembra Aldeci.
Moradora de São José da Tapera, no Sertão alagoano, conta que nunca tinha feito uma mamografia, pois tinha medo. Diziam que o exame podia adoecê-la. Quando resolveu buscar ajuda médica o câncer já tinha avançado muito. Achava que o caroço que já aparecia era um problema hormonal, mas a situação na verdade era grave.
“Fiz cirurgia da mama, com a retirada das duas. Tem uma que incomoda mais e a almofada ajuda bastante. Alivia o coração. Eu não enxergava que estava doente e só comecei a me amar depois que eu fiquei doente”, conta Aldeci, que soube há pouco tempo que as almofadas de coração são produzidas por reeducandos, pelas mãos de quem um dia praticou crime e hoje tem o resultado de sua força de trabalho pulsando junto ao corpo de grandes mulheres, como a sertaneja Aldeci.

Dados do INCA
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), como o câncer é uma doença que não possui notificação obrigatória, o órgão do Ministério da Saúde não trabalha com dados de incidência, mas sim estimativas de casos que são divulgadas a cada três anos.
As últimas estimativas do INCA correspondem ao triênio 2026/2028 com números considerados isoladamente, em cada um dos anos desse intervalo.
Em 2024 (último ano disponível no Atlas de Mortalidade), foram registrados 20.849 óbitos decorrentes de câncer de mama no Brasil, sendo 247 deles em Alagoas.
Segundo as últimas estatísticas do INCA, são estimados 78.610 novos casos de câncer de mama no Brasil em cada um dos anos de 2026, 2027 e 2028 (esse total não é a somatória dos três anos, mas, sim, o número de novos casos em cada um dos anos do período). Já em Alagoas, são estimados 880 novos casos de câncer de mama em cada ano do triênio 2026/2028.
Confira o Podcast sobre o Projeto Almofadas do Coração:
https://drive.google.com/file/d/1ZA_Fz8VPItn3sLRf9Lm7R8tr8sw9B3C6/view
