"Falar em meritocracia em Alagoas é ignorar que a largada é completamente desigual. A juventude periférica não parte do mesmo lugar, e a promessa de que o esforço individual ou o diploma universitário garantem a ascensão social tem se mostrado uma falsa ilusão diante de barreiras estruturais de raça, gênero e classe."

A provocação é da socióloga Vanessa Giló ao analisar os entraves para a emancipação e a mobilidade social da juventude alagoana. A fala ganha respaldo empírico nos dados do Atlas da Mobilidade Social no Brasil, elaborado pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS). 

O levantamento revela uma realidade severa para o estado: as chances de um jovem nascido nas faixas mais pobres da população (os 20% de menor renda) alcançar o topo da distribuição de renda na vida adulta são inferiores a 1%.

Socióloga Vanessa Giló. Crédito: Cortesia ao CadaMinuto

 

Esse diagnóstico evidencia que a promessa de que o esforço individual e a qualificação profissional são garantias suficientes para a mudança de vida encontra barreiras profundas no cenário econômico e social de Alagoas. 

Para os jovens periféricos, negros, mulheres e moradores das grotas da capital e do interior, a busca pela ascensão passa por um filtro de desigualdades históricas que envolvem a precarização do mercado de trabalho, a segregação territorial e a insuficiência de políticas públicas estruturantes.

A análise da pesquisadora aponta que, embora programas de transferência de renda garantam a subsistência imediata das famílias, a alteração real desse quadro de estagnação captado pelo Atlas exige investimento pesado na escola pública, no combate ao epistemicídio e na descentralização dos equipamentos culturais.

A ilusão da meritocracia e o apelo das apostas digitais

A ideia de que o trabalho formal ou a conquista do diploma universitário asseguram a saída da pobreza tem sido confrontada pela realidade local. 

Com taxas elevadas de informalidade e baixos salários, o mercado de trabalho formal em Alagoas muitas vezes não entrega a estabilidade prometida, mantendo a taxa de mobilidade intergeracional em níveis alarmantemente baixos.

Esse cenário de desvalorização do ensino superior e do emprego tradicional abre espaço para arranjos informais e para a busca por renda rápida, como as apostas digitais e a atuação em redes sociais. 

Esse fenômeno ganha força em um contexto em que saberes e práticas das periferias são historicamente desvalorizados, o chamado epistemicídio, enquanto narrativas de enriquecimento facilitado cooptam a juventude exposta à falta de perspectivas reais de ascensão.

As dificuldades de acesso e permanência no mercado de trabalho se acentuam quando observadas sob a ótica da interseccionalidade. 

As mulheres periféricas e negras enfrentam uma dupla jornada de barreiras: além da disputa por vagas, lidam com a disparidade salarial em relação aos homens na mesma função e com a contestação constante de sua capacidade profissional.

"Mesmo quando essa jovem ou mulher consegue furar a bolha, acessar o trabalho formal ou cargos de chefia, ela vai precisar lidar diariamente com o machismo e a contestação da sua capacidade. No caso das mulheres trans, soma-se a isso a contestação do seu próprio gênero", destaca Vanessa Giló, assegurando que a violência de gênero também opera como elemento de contenção social. 

Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam que Alagoas registrou cerca de 30 feminicídios em 2025, para a especialista isso evidencia que o avanço educacional ou a conquista de autonomia financeira não isolam as mulheres das dinâmicas de violência extrema.

A questão territorial é outro fator determinante. A distância física entre os bairros periféricos e os centros de oportunidade limita a circulação dos jovens e o acesso a bens fundamentais, perpetuando o ciclo de baixa mobilidade apontado pelo Atlas do IMDS.

Além do alívio imediato 

Para Vanessa Giló, o combate a esse quadro exige distinguir ações de alívio da pobreza de projetos de desenvolvimento a longo prazo.

"Programas como o Bolsa Família são fundamentais para garantir a dignidade mínima e a alimentação, mas o Estado precisa de projetos estruturantes. Precisamos de um investimento robusto na infraestrutura das escolas e na valorização de todos os profissionais da educação", pontua.

A superação das desigualdades depende de reformas na educação pública que contemplem também a aplicação efetiva da Lei 10.639/03, que estabelece o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena. 

A integração desses conteúdos ao currículo é apontada como instrumento para gerar pertencimento e interesse nos estudantes das periferias.

Paralelamente, a gestão urbana de Maceió reflete uma assimetria na distribuição dos equipamentos públicos. A concentração de museus, teatros e espaços de lazer na parte baixa da capital restringe o acesso dos moradores da parte alta, onde se aglutina a maior parte da população periférica.

"Não é possível normalizar que os equipamentos culturais estejam concentrados na parte baixa enquanto a maior parte dos jovens reside na parte alta. Construir equidade passa por levar museus, teatros e bibliotecas para perto desses jovens, fortalecendo a cultura local e o direito à cidade", conclui a socióloga.