Se não olharmos com alguma piedade para nós mesmos, veremos o quanto nos tornamos ridículos ao “conversarmos” com os recém-nascidos. Tentamos, na verdade, reproduzir uma linguagem que eles... não falam. E quando o fazemos, estamos convencidos de que somos compreendidos. Se bem que qualquer manifestação verdadeira de afeto, mal não há de fazer.

No nosso cotidiano, o comportamento que adotamos em casa, nas ruas ou no ambiente de trabalho é em tudo influenciado pelo outro (e vice-versa) com quem interagimos. Daí nós sermos tantos, a depender do interlocutor.

Há gente que nos inspira o bom humor, o que é ótimo e nos empurra para adiante. Outros, pelo contrário, nos deixam cansados, roubam a “energia” de que dispomos – são como “gatos” na instalação elétrica que circunda a todos.

Fujo léguas dos eternamente cansados, a soprar uma exaustão quase sempre inexistente. Há também os que interferem e mudam o rumo do nosso cotidiano por narrarem, sem pausas ou descanso, suas tragédias e vitórias diárias, não fossem elas a repetição das dores e prazeres de cada um.

Verdadeiramente, nenhum de nós é impermeável aos contatos diários – com a exceção, que confirma a regra, dos psicopatas e assemelhados, que não conhecem empatia. Tentamos às vezes, até por conta desses pequenos infortúnios, alcançar a “felicidade da quietude” (Freud), e nos recolhermos à necessária privacidade.

Nem sempre é possível.

O humor alheio, para o bem e para o mal, influi diretamente no nosso estado de espírito. Não nos esqueçamos, porém, de que esta é uma via de duas mãos, o que exige um cuidado ainda maior com o que externamos na convivência inevitável.

Os que preferem o silêncio, como eu, haverão de saber o quanto os retóricos e os tagarelas atuam de forma destrutiva na nossa alma. Se raivosos, então, a opção pelo adeus é o caminho mais sensato.

É do bem-querer que nos alimentamos para seguir trilhando a vida, renovando o ânimo indispensável a quem acredita que vale a pena tocar em frente. É um troca-troca que, se não acontece na frequência precisa, pode nos custar caro, para ambos os lados. 

Eis que nos acode um sujeito que deixou como herança generosos ensinamentos sobre o bem-viver: o Maestro Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim - “É impossível ser feliz sozinho” (“Wave”).

Tudo bem, mas que não nos esqueçamos: também é possível ser mais infeliz acompanhado.

Quanto ao único e definitivo indivíduo, “puro” e sem a influência do ambiente com o qual convivemos, este só pode ser encontrado no escuro do quarto, no silêncio da noite.

É dar duro com ele, mas pouco de paciência e tolerância com esse indivíduo parece ser recomendável nessa hora.