Fazer cinema também é aprender a transformar limitações em escolhas. Para quem está começando, cada produção reúne descobertas que vão da escrita do roteiro à direção dos atores, passando pelas decisões tomadas durante as filmagens e pela montagem do material.
Em Alagoas, novos realizadores buscam espaço para experimentar linguagens, desenvolver um olhar próprio e contar diferentes histórias. O desafio não termina quando as câmeras são desligadas. É preciso encontrar locais onde esses trabalhos possam chegar ao público, ser discutidos e abrir caminho para outras produções.
Foi com essa proposta que a segunda edição da Mostra Primeira Vista levou sete curtas-metragens inéditos ao Theatro Homerinho, no bairro histórico de Jaraguá, em Maceió, neste sábado (25). Produzidos por alunos, ex-alunos e professores da Escola Criattiva, os filmes apresentaram diferentes temas e propostas narrativas.
Foram exibidos “Então Temos”, “Tatiana Catatônica”, “Viagem Perdida”, “O Voo”, “Deadline”, “Camila” e “Uma Suíte sobre o Caso Santo Errado”. Após a sessão, os realizadores participaram de uma roda de conversa mediada pelo cineasta Leonardo Amorim e falaram sobre as escolhas, dificuldades e descobertas que marcaram as produções.
Em cena
Com apenas sete segundos de duração, “Então Temos”, dirigido por Aloísio Correia, abriu a programação. O curta transforma a própria brevidade em linguagem e propõe uma reflexão sobre os limites da produção audiovisual.
“Qualquer explicação sobre o filme já é mais longa do que o próprio filme”, brincou Aloísio durante a roda de conversa.
Segundo o diretor, a obra surgiu na aula inaugural do curso, em uma proposta para apresentar aos alunos todas as etapas envolvidas na criação de um filme, desde a ideia inicial até a filmagem, montagem, pós-produção e distribuição.
Na sequência, “Tatiana Catatônica”, dirigido por Leonardo Amorim a partir de um roteiro de Aloísio Correia, apresentou uma estética vibrante para contar uma história de triângulo amoroso atravessada pelos limites entre paixão e obsessão.
Marcado por elementos simbólicos e por uma atmosfera quase espiritual, o curta também representou uma experiência inédita para Leonardo, que dirigiu, pela primeira vez, uma obra escrita por outra pessoa.
“Nunca tinha dirigido um filme que eu não escrevi. Pegar as palavras de outra pessoa e encontrar outra forma de olhar foi muito instigante para mim”, afirmou.
Em “Viagem Perdida”, a diretora Clara Macedo apostou em uma narrativa conduzida pelos diálogos para abordar amizade, amadurecimento e memória. O filme acompanha duas amigas e revisita emoções e vivências da adolescência.
Com uma fotografia de tirar o fôlego, o curta marcou a estreia maestral de Clara na direção. Segundo a realizadora, um dos principais desafios foi confiar nas próprias escolhas sem deixar de considerar as contribuições da equipe.
“Foi muito desafiador, principalmente confiar em mim mesma para saber o que eu queria e, ao mesmo tempo, considerar a opinião das outras pessoas”, contou.
Mariane Acioli e João Henrique dividiram a direção de “O Voo”, drama inspirado em experiências pessoais e nas observações feitas por Mariane durante a graduação em Psicologia.
O curta, que revela o olhar sensível e autêntico da diretora, acompanha a relação conturbada entre dois irmãos e aborda as marcas deixadas por dinâmicas familiares tóxicas, além dos conflitos emocionais e das consequências dessas vivências no ambiente familiar.
“É um filme difícil de fazer. É um tema sério, e poder trazer isso para a tela foi muito importante”, destacou Mariane.
Já em “Deadline”, dirigido por Rafael Godoy e Woulthamberg Rodrigues, o Berg, uma ideia amadurecida durante anos ganhou forma em apenas um domingo de gravação.
Rodado em cerca de cinco horas, o curta incorporou a urgência do próprio processo de produção à narrativa. A história aborda a pressão dos prazos, a cobrança por resultados e a corrida para atender às demandas da vida profissional.
Para Berg, que também atua como fotógrafo, a obra tem uma dimensão pessoal e dialoga com experiências vividas pelo diretor, além da relação construída ao longo dos anos com a fotografia e a criação artística.
“É uma história muito pessoal. Dei um ‘corta’ chorando”, revelou ao comentar a carga emocional envolvida na produção.
“Camila”, dirigido por Anthony Candido, aposta em atuações intensas para construir uma narrativa densa e inquietante. Centrado nas personagens Clarice e Camila, o curta acompanha o processo criativo de uma escritora, aborda temas sensíveis e abre espaço para diferentes interpretações.
Para Anthony, o filme marcou sua descoberta da escrita para o audiovisual e trouxe o desafio de transformar em imagens aquilo que, inicialmente, existia apenas na imaginação.
Encerrando a programação, “Uma Suíte sobre o Caso Santo Errado”, de Daniel Ricardo, mistura ficção e linguagem documental ao acompanhar estudantes de Jornalismo que seguem até o bairro do Pontal para produzir uma grande reportagem como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).
A produção brinca com o significado do termo “suíte”, utilizado no jornalismo para se referir ao desdobramento de uma notícia. Uma virada narrativa rompeu com a expectativa construída ao longo da trama e provocou reação imediata da plateia durante a exibição.
Novos talentos
A mostra também ressalta a importância da preparação de elenco na construção das obras. Um dos destaques da noite, a atriz Fernanda Tango participou de cinco dos sete curtas exibidos e interpretou personagens com diferentes características e cargas emocionais.
Durante a roda de conversa, Fernanda falou sobre o desafio de transitar entre papéis tão intensos.
“É preciso saber entrar no que o filme pede, mas também conseguir sair depois. Foi uma carga pesada”, afirmou.
A Mostra Primeira Vista aposta na exibição de filmes em primeiro corte e abre espaço para que os realizadores conversem sobre acertos, dúvidas e processos envolvidos nas produções.
Mais do que destacar a figura do diretor, o evento também valoriza o trabalho essencial das equipes que atuam nos bastidores, como fotografia, direção de arte, som, montagem e tantas outras áreas que dão forma às obras.
Reforçando que o cinema é resultado de uma construção coletiva, em que a colaboração entre diferentes profissionais é fundamental para transformar uma ideia em narrativa, imagem e experiência para o público.
Com isso, o evento concentra sua proposta não apenas nos filmes finalizados, mas também no percurso criativo e nas escolhas que fazem parte de cada etapa da realização.
Em um cenário no qual a produção independente ainda enfrenta dificuldades, iniciativas como a da Escola Criattiva funcionam como vitrine para novos talentos e contribuem para o fortalecimento do audiovisual alagoano.
Os curtas exibidos representam o início da trajetória desses realizadores. Ao oferecer uma primeira vista sobre a nova geração, a mostra também aponta para os próximos capítulos do cinema produzido em Alagoas.
Foto de capa: Victor Aleixo


