Sob a gestão do reitor Josealdo Tonholo e com o compromisso coletivo de sua comunidade de 40 mil pessoas, a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) tem desafiado qualquer lógica administrativa por seguir em expansão enquanto enfrenta retenções financeiras de quase dois terços, com um orçamento real comparável ao de 2009. Ainda assim, a Ufal cresce, abre cursos estratégicos e eleva indicadores acadêmicos como protagonista do avanço da ciência, com inovação e compromisso decisivos para o futuro das políticas públicas de Alagoas.
Essa expansão ocorre em um contexto financeiro crítico, porque a retenção de recursos federais empurra a instituição para um cenário de colapso estrutural. O orçamento da Universidade para 2026 — definido pelo Congresso Nacional — é de R$ 1,27 bilhão, mas o valor efetivamente pago até julho soma R$ 447,2 milhões, o que representa uma retenção de 64,8% do previsto, mesmo com a Ufal já tendo empenhado R$ 1,19 bilhão em compromissos para manter a máquina funcionando.
A consequência imediata é a necessidade de escolhas duras na gestão do custeio e da manutenção física dos campi. A Reitoria tem priorizado a assistência estudantil e a manutenção dos restaurantes universitários, entendidas como condições básicas para a permanência dos alunos nos cursos.
Tonholo não se coloca como herói solitário, apesar de sua liderança ter impedido que a Ufal sucumbisse. Ele destaca que, desde 2015, a instituição do orçamento impositivo levou o Legislativo a drenar os recursos por meio de emendas e praticamente acabou com a capacidade de planejamento das universidades.
“O Ministério da Educação tem nos dado suporte integral, inclusive apoiando a criação de novos cursos por meio de iniciativas como os programas Universidades Estratégicas e Universidades Inovadoras. Mas o orçamento definido pelo Congresso Nacional tem sido insuficiente”, alerta o reitor, enquanto conduz a Ufal com uma combinação de rigor técnico, cobrança política e articulação de uma resistência que se tornou marca da comunidade universitária.
Tonholo também destaca o caráter estratégico de resistir para garantir a evolução da produção científica para o estado. “A Ufal não é só uma universidade. Ela é um vetor de desenvolvimento. Sem pesquisa, Alagoas não acompanha o ritmo tecnológico do país”, argumenta.
Expansão desafia a matemática orçamentária
A Ufal inicia neste mês, no dia 28, a primeira turma do curso de Inteligência Artificial, aprovado pelo MEC em um cenário nacional de extrema seletividade. Apenas seis universidades brasileiras conseguiram autorização para abrir a graduação. A Ufal é uma delas.
O reitor explica que isso não é fruto de improviso, mas de anos de construção técnica: “A gente tinha que ter um cacife todo, um conhecimento todo sobre a área de inteligência artificial. Tivemos o apoio do MEC e um comprometimento gigante de nossos docentes e técnicos. Felizmente, aqui em Alagoas, nossos grupos já trabalham em projetos estratégicos alinhados com o governo federal, e este curso é fruto desta interação necessária e frutífera”.
A produção científica da Ufal segue o caminho oposto ao da deterioração orçamentária e física da instituição. Sua ascensão diversificada se torna o principal eixo de sustentação da Universidade em meio ao estrangulamento financeiro. Laboratórios e grupos de pesquisa tornam-se referência nacional e internacional.
Quando Tonholo assumiu a Reitoria, no início da pandemia de 2020, a Ufal tinha menos de 80 bolsistas de produtividade do CNPq. Hoje, são mais de 230, um crescimento que não encontra paralelo recente entre universidades federais de porte semelhante.
“Esse avanço não é casual. É resultado de anos de trabalho silencioso dos nossos grupos de pesquisa, que, mesmo sem infraestrutura ideal, entregam ciência de ponta”, afirma o reitor.
Na pós-graduação, o desempenho é igualmente expressivo. Na avaliação mais recente da Capes, a Ufal foi a universidade federal do Nordeste que mais elevou as notas de mestrados e doutorados. O caso mais emblemático é o Programa de Diversidade Biológica e Conservação dos Trópicos, que protagonizou um feito inédito.
“Pela primeira vez na história da Capes, um curso saiu diretamente da nota 5 para a nota 7, o nível máximo da Capes. Isso mostra que, mesmo na adversidade, a Ufal entrega excelência”, ressalta Tonholo.
Reconhecimento é porta de entrada para recursos na Ufal
O impacto da evolução científica da Ufal ultrapassa os muros da Universidade, e a instituição se tornou peça-chave em políticas públicas nacionais de grande escala. Por exemplo, a Ufal desenvolve 100% da inteligência de dados do Programa Pé-de-Meia, responsável por garantir a permanência escolar de milhões de jovens brasileiros.
A Ufal ainda executa sete das oito etapas do Programa Nacional do Livro Didático, o maior programa de distribuição de livros do mundo, e foi responsável pela criação da plataforma Tela Brasil, que democratiza o acesso a obras audiovisuais financiadas por leis federais como a Paulo Gustavo, a Aldir Blanc e a Rouanet.
“Isso nos deu lastro técnico para aprovar o curso de inteligência artificial e para assumir responsabilidades que poucas universidades conseguem”, destaca Tonholo.
A Universidade Federal de Alagoas também se consolidou como polo de inovação industrial, que não apenas fortalece a pesquisa, mas também ajuda a compensar a ausência de repasses federais. A unidade Embrapii da Universidade, classificada com grau diamante, mantém contratos com quase 40 das maiores empresas industriais do mundo. Seus projetos vão de soluções de eficiência energética a tecnologias aplicadas à mitigação dos danos geológicos causados pela Braskem em Maceió.
“Cada projeto desses deixa uma taxinha que a gente usa para compensar a falta do orçamento oficial. Mas há limites. Eu não posso pagar energia elétrica de um projeto. Energia tem que sair do orçamento da Ufal. Eu não posso pagar pessoal terceirizado de limpeza com dinheiro de pesquisa. Existem obrigações que só podem ser cobertas pelo orçamento institucional. Por isso, é necessário o Congresso agir”, pondera o reitor.
Futuro à sombra do passado: um alerta para a insustentabilidade
Além da nova graduação em IA, a Ufal negocia com o MEC a abertura de 26 novos cursos em áreas consideradas decisivas para o desenvolvimento regional. A expectativa realista é emplacar cinco ou seis. Em qualquer outro momento da história da Universidade, isso seria apenas planejamento. Em 2026, é resistência.
Isso porque o orçamento voltou no tempo. A Ufal opera hoje com o mesmo poder de compra que tinha em 2009, quando o Campus do Sertão não existia, Arapiraca estava no início e Maceió tinha 30% menos alunos.
“O resultado é a precarização. E a gente tem que fazer escolhas sobre o que vai doer mais na carne na hora de cortar. Mas algumas ações a gente já não pode fazer de jeito nenhum. Por exemplo, mexer na assistência estudantil, nas bolsas de estudo, no Restaurante Universitário (RU). Porque, sem estudante, não tem universidade. E o RU é sagrado. Se não estiver de barriga cheia, o estudante não consegue estudar. O que a gente faz? Enxuga os contratos”, relata o reitor Tonholo.
Entre pagar a limpeza ou cortar o mato, o reitor paga a limpeza. Entre reforçar a segurança ou garantir bolsas, garante bolsas. Entre quitar a conta de energia elétrica, atrasada há mais de seis meses, ou manter o RU funcionando, mantém o RU. E a luz segue ligada sob liminar judicial.
Outro dado dramático é que a manutenção predial deveria receber algo entre R$ 85 milhões e R$ 90 milhões por ano. Em 2026, a Ufal executou R$ 4,5 milhões até agora. E o resultado é visível: telhados cedendo, mato avançando, laboratórios defasados e prédios interditados.
O avanço científico obtido sob o colapso físico da instituição é, para o reitor, o retrato mais fiel da crise. “A gente está crescendo naquilo que depende de inteligência, dedicação e parceria com o MEC, com o setor privado, com o governo do Estado e com algumas prefeituras. Mas está encolhendo naquilo que depende de orçamento. E isso não é sustentável por muito tempo”, alerta.
