"Dói exatamente no lugar do silêncio, onde a gente não pode falar sobre algo que é tão natural e tão biológico para o nosso próprio corpo. E quando a gente não pode falar, o corpo é que padece." O alerta é da psicóloga e psicanalista Francielle Alves, especialista que estuda o ciclo menstrual há mais de uma década.
A dor a que ela se refere, no entanto, não é apenas física. Ela ecoa silenciosamente na rotina de milhares de meninas, mulheres e pessoas que menstruam em Alagoas, que enfrentam mensalmente os efeitos devastadores da pobreza menstrual.
No estado, a chegada do ciclo mensal deixa de ser um mero marcador de saúde biológica para se tornar um período de isolamento, constrangimento e exclusão social.
O fenômeno escancara as profundas desigualdades socioeconômicas locais, onde a falta de acesso a insumos básicos de higiene se cruza com gargalos históricos de saneamento básico, habitação e educação.
A ausência de absorventes descartáveis força muitas jovens e mulheres de comunidades periféricas e rurais a recorrerem a improvisos perigosos. Panos velhos, pedaços de papel de jornal, miolo de pão e até folhas de árvore são utilizados para conter o sangramento.

Se o impacto físico imediato se traduz em infecções urinárias e ginecológicas graves, o dano psicológico deixa marcas profundas na subjetividade dessas pessoas.
De acordo com Francielle Alves, a impossibilidade de gerenciar o próprio corpo com segurança e privacidade gera um sentimento persistente de inadequação, vergonha e desamparo.
"Essa dor se traduz, sim, em cólicas, dores, sintomas físicos que muitas vezes são ignorados e não tratados. Mas dói principalmente na dignidade, no lugar social de se sentir invisibilizada, de não ter os seus direitos básicos garantidos", aponta a psicanalista.
De acordo com ela, esse silenciamento sistemático afeta diretamente o exercício da cidadania. Nas escolas públicas de Alagoas, a evasão escolar durante o período menstrual é uma realidade silenciosa onde jovens perdem preciosos dias de aula ao longo do ano letivo simplesmente por não terem como se proteger ou se higienizar adequadamente no ambiente escolar, o que aprofunda as disparidades de gênero e oportunidades.
Além do produto: um problema estrutural
A psicanalista destaca que limitar o debate da dignidade menstrual à mera distribuição de absorventes descartáveis é ignorar a complexidade do cenário alagoano.
Em territórios marcados pela vulnerabilidade social, onde a água encanada e a coleta de esgoto ainda são promessas distantes, o próprio ato de se lavar durante o ciclo menstrual torna-se um luxo inacessível.
Para a especialista, enfrentar a pobreza menstrual exige um olhar intersetorial das políticas públicas, que conecte a saúde ao saneamento e à dignidade habitacional.
"Quando a gente pensa em Alagoas, as desigualdades sociais e econômicas são muito marcantes. E falar sobre menstruação, falar sobre dignidade menstrual, é também falar sobre saúde pública, saneamento básico, habitação, educação... É um tema complexo que não se resolve apenas com a distribuição de um produto. Requer uma mudança de cultura, uma mudança estrutural, onde as pessoas que menstruam possam ter o direito de cuidar do seu próprio corpo de forma segura, saudável e sem vergonha", explica Francielle.
Romper o tabu para garantir o futuro
A desmistificação do sangue menstrual é apontada pela especialista como o primeiro passo para transformar essa realidade.
Embora iniciativas locais e legislações focadas na distribuição de insumos em escolas e postos de saúde representem avanços institucionais importantes, eles precisam caminhar lado a lado com a educação menstrual e com o acolhimento dessas narrativas nas comunidades.
Para ela, levar o debate para as salas de aula e para os espaços de decisão política é o caminho para resgatar a dignidade de quem foi historicamente empurrado para a margem.
"Dói na impossibilidade de viver o seu corpo plenamente, de exercer a sua liberdade e a sua dignidade. E que a gente possa, sim, avançar e trazer esse debate para as escolas, para as comunidades, para as políticas públicas, de modo que nenhuma menina, nenhuma mulher em Alagoas precise sofrer calada e invisibilizada", finaliza a psicanalista.
Foto de capa: Alexandra/ Adobe Stock
