De há muito eu descobri que a raiva, quando sou tomado por ela, me faz um mal danado. Sinto-me, na sequência, exaurido, as forças me abandonando, como se não quisessem ser minhas cúmplices nesse sentimento tão humano e tão permanente na história da nossa espécie. 

Eis que, por óbvio, cada vez faço mais o que está ao meu alcance para evitá-lo. Talvez porque seja assim a minha natureza, mansa, de tolerância e aconchego. É verdade que nem sempre ela se impõe, e eu pago por isso. Mas busco mesmo a serenidade, acima de qualquer coisa.

Ao fim e ao cabo, apesar de concordar com os versos do maravilhoso Chico Buarque de Holanda, em “Caravanas” – “Filha do medo, a raiva é mãe da covardia” – e o seu complemento, que foi dado por Montaigne – “A covardia é a mãe da crueldade” -, ouso dizer que a raiva me joga para valer em meio à tristeza. E é ruim, muito ruim.

E o que dizem sobre o tema os estudiosos? 

Em “A ciência do ódio”, o sociólogo britânico Matthew William disseca esse sentimento, tão primitivo e tão persistente, que nos ajudou a chegar até aqui, sobrevivendo em um mundo hostil, que sempre nos avisou que “viver é muito perigoso”. Aliás, ensina o cientista, o medo e ódio nascem na mesma região do cérebro: a amígdala cerebelosa. 

Apontado como um dos maiores especialistas em criminologia do planeta, Matthew William dá dicas preciosas, como, por exemplo, alertar que as redes sociais são o território ideal por onde transita a raiva nossa de cada dia. 

Não por acaso, o chamado discurso do ódio se estabelece hoje como a essência do que somos. Pode até ser, mas, seguramente, não é o devíamos ser nessa quadra da existência humana, onde o dito-cujo já fez estragos demais – matou milhões, nos empurrando para o preconceito, para a misoginia e a impossibilidade de convivência entre os diferentes.

Vivo fora desse universo e nele não pretendo adentrar. No meu trabalho diário, porém, como blogueiro e pretenso comentarista político, ainda que busque oferecer um pouco de humor, me deparo com um ódio visceral de gente que imagino ser tão comum quanto eu, mas que se acostumou a destilar bile como se fosse a única forma de viver.

Antes que soubéssemos tanto quanto hoje sobre o ódio e seus similares, Hitler, ele mesmo, afirmava que o caminho para o poder era exatamente a exploração da raiva alheia. 

Bingo! Temos - todos - motivos de sobra para nos revoltarmos com o lado de fora da gente e, principalmente, com o mundo do poder. 

Então o que fez o genocida? Explorou esse sentimento até não ser mais necessário para que ele se estabelecesse como senhor de uma das maiores máquinas de guerra já construídas pela humanidade. Vimos no que deu, não foi?

Mas como é falsa a premissa de que não caímos na duas vezes mesma armadilha, em um erro exatamente igual!

No ótimo “O mago do Kremlin”, Giuliano da Empoli traz um breve discurso de Vladimir Putin, em que ele deixa clara a sua “descoberta”: é preciso explorar a raiva das pessoas. 

O detalhe fundamental é que essa turma, que conhece a nossa vulnerabilidade e a nossa incapacidade de domar um sentimento tão agudo, se encarrega de alimentá-lo a cada dia, empurrando o que nos sobrou de humanidade/humanismo para o abismo.

Acho que ninguém, por enquanto pelo menos, há de saber como desviar desse caminho suicida. Por meu lado, guardo alguma esperança de que o cansaço – assim como acontece comigo – tome conta dos corações e mentes de todos os que sabem o sabor amargo da raiva/ódio.