Acordar com a sensação de cansaço no rosto, dores de cabeça persistentes nas regiões laterais da face ou um incômodo inexplicável no pescoço tem se tornado uma rotina amarga para milhares de alagoanos. 

Longe de ser um problema isolado de saúde bucal, o bruxismo, o hábito involuntário de apertar ou ranger os dentes, consolidou-se como uma verdadeira válvula de escape física para o estresse crônico, as pressões profissionais e as ansiedades do cotidiano urbano.

No entanto, o maior perigo dessa condição em Alagoas não reside apenas na força descarregada sobre a musculatura facial, mas em um comportamento cultural preocupante: a displicência com o cuidado preventivo.

De acordo com o cirurgião-dentista Dr. Écio Olegário, o perfil de quem mais sofre com as consequências severas do bruxismo no estado está diretamente ligado ao comportamento de saúde. 

Dr. Écio Olegário, cirurgião-dentista

 

Ao contrário do que se imagina, o agravamento do quadro não escolhe apenas uma faixa etária, mas atinge em cheio aqueles que evitam o consultório dentário.

"O alagoano que tem mais sofrido com isso hoje são as pessoas que não procuram o dentista", revela o especialista. "Geralmente são os homens que demoram mais para procurar o tratamento dentário."

Esse distanciamento do atendimento adequado transforma o que poderia ser um tratamento simples em um quadro de desgaste severo e dores crônicas. 

O especialista aponta que a própria rotina pesada e a correria do dia a dia alimentam esse ciclo, fazendo com que o indivíduo só busque ajuda quando a dor se torna incapacitante. 

"Essas pessoas que são mais displicentes tendem a ter mais problemas bucais", adverte Dr. Écio.

Falta de dentes, dores no pescoço e impacto no casamento

Um dos grandes diferenciais do bruxismo é a sua capacidade de irradiar problemas para outras partes do corpo, confundindo o paciente na hora de buscar o diagnóstico correto. 

Olegário explica que dores na coluna cervical e no pescoço estão intimamente ligadas à mecânica da boca. 

E, neste cenário, um fator social do estado ganha peso: a perda precoce de elementos dentários.

"Os problemas na coluna e no pescoço também são associados à falta de dentes. A falta de dentes também dá bruxismo e problemas na articulação mandibular", esclarece o dentista, reforçando que a ausência de dentes e cáries não tratadas desequilibram a mordida e sobrecarregam os músculos da face.

Além do impacto postural, o bruxismo invade as madrugadas e destrói a qualidade do sono do paciente e de quem divide a cama com ele. A fadiga e o mau humor do dia seguinte são frutos de uma noite fragmentada.

"O bruxismo destrói a qualidade do sono, já que a pessoa tem picos de acordar à noite involuntariamente", pontua Dr. Écio. "Geralmente quem tem bruxismo também ronca e acaba atrapalhando o sono do companheiro."

Sinais de alerta para o corpo

Se você apresenta algum desses sintomas, o seu corpo pode estar manifestando o estresse na mandíbula:

- Dor de cabeça na região das têmporas logo ao acordar;

- Zumbido constante no ouvido ou estalos ao abrir a boca;

- Sensação de fadiga muscular no rosto ou dificuldade para mastigar;

- Dores frequentes no pescoço e na região cervical.

A abordagem moderna e a 'tríade inegociável

Se no passado o tratamento do bruxismo se resumia à entrega de uma placa de acrílico para o paciente morder durante a noite, a Odontologia moderna enxerga o problema de forma muito mais ampla. Embora as placas ainda sejam fundamentais para proteger a estrutura dos dentes, a cura real exige uma investigação das causas.

De acordo com o especialista, o tratamento pode envolver desde procedimentos ortodônticos para alinhar a mordida e a reabilitação dos dentes perdidos até o encaminhamento para uma rede multidisciplinar. "Envolve também, como sempre envolveu, tratamento com psicólogos, neurologistas e fisioterapeutas. Depende de cada caso e do nível de estresse de cada pessoa", afirma o doutor. O dentista funciona, portanto, como o profissional capaz de avaliar o quadro e guiar o paciente pelo melhor caminho de recuperação.

Para fechar as portas para o bruxismo, cáries e dores agudas, o Dr. Écio Olegário faz um apelo para que a população resgate um hábito básico, mas que tem sido quebrado pela rotina acelerada: a tríade essencial da saúde bucal.

"A pessoa tem que ter sempre aquela tríade: escovar o dente, usar fio dental e ir ao dentista. Se você quebrar essa tríade, vai ter problemas futuros como cárie, gengivite e dor de dente. Seguir esse hábito sempre é a melhor maneira de evitar problemas como o bruxismo e a cárie propriamente dita", conclui.