"Quanto menos acesso à educação ela tem e mais cedo ela se insere no mercado de trabalho, ela fica mais propensa às desigualdades sociais, principalmente em relação à raça. Porque o racismo vai afetar na aprendizagem dela."

A fala é da historiadora e antropóloga Rose Silva que detalha como essa transição histórica transferiu para a mulher negra a responsabilidade central pela sobrevivência de uma população desassistida pelo Estado. 

Para além dos indicadores estatísticos tradicionais de segurança pública, analistas apontam que a compreensão da violência contra a mulher negra no estado exige o exame de uma cadeia causal que conecta o passado colonial, a precarização econômica e, mais recentemente, as dinâmicas de ódio propagadas no ambiente virtual.  

A organização socioeconômica de Alagoas preserva marcas estruturais do período escravocrata. As funções compulsórias outorgadas às mulheres negras na vigência da escravidão, como o trabalho nas lavouras, os serviços domésticos nas Casas-Grandes e o comércio de subsistência nas ruas por meio de lavadeiras, passadeiras e quituteiras, desenharam um modelo de exploração que não foi desfeito com a assinatura da Lei Áurea em 1888.  

"No período da escravidão, com essa estrutura das mulheres tendo forçadas ali, tendo explorada a sua força de trabalho nas lavouras, a estrutura dentro da Casa-Grande, a criação e educação das crianças em detrimento dos próprios filhos, e a venda da força de trabalho dessa mulher como lavadeira, passadeira, engomadeira, quando ela é obrigada a ir para a rua, ir para o comércio fazer essa venda para os senhores” destacou Rose.

Historiadora e antropóloga Rose da Silva


Ainda de acordo com ela, com o advento da abolição, as mulheres negras vão, através desses trabalhos vão sustentar agora a família. “Essa população que foi jogada ao léu, ao relento, para fora com o advento da Lei Áurea. Então é através disso. Enquanto ela corre para, para manter a subsistência da família através da negociação, do comércio, da venda, é ela que corre com a criação dos filhos com a transmissão da cultura, da memória, da identidade. Ela educa através do exemplo nessa situação, nessa construção coletiva".

Na contemporaneidade, essa dinâmica se manifesta na inserção precoce de meninas e jovens negras no mercado de trabalho informal. A necessidade imediata de complementação da renda familiar, muitas vezes associada a cenários de insegurança alimentar, atua como vetor de manutenção de baixos índices de escolaridade, limitando o acesso a postos de trabalho qualificados e perpetuando a disparidade salarial por recortes de gênero e raça.

"Quando a gente traz isso para os dias atuais, você vai ter uma situação que a mulher, ela é inserida muito cedo no mercado de trabalho geralmente com a manutenção de uma baixa escolaridade, porque muito cedo ela vai assumir uma responsabilidade muito grande, seja no cuidado com as crianças, na limpeza da casa, na venda, no pequeno comércio, na que... no cuidado com os idosos”, detalhou.

Para Rose, nessa responsabilização, a própria estrutura em si vai tornar natural, vai naturalizar esse, essa entrada muito cedo no mercado de trabalho dessa mulher negra. “Só que quanto menos acesso à educação ela tem e mais cedo ela se insere no mercado de trabalho, ela fica mais propensa a essas desigualdades sociais, principalmente em relação à raça. Porque o racismo vai afetar na aprendizagem dela".

Impacto social e sistêmico

A violência contra a mulher, especialmente a mulher negra periférica, é caracterizada por especialistas como um fenômeno de impacto macroestrutural, cujos desdobramentos sobrecarregam diretamente as redes públicas de serviços essenciais. 

A agressão doméstica e a vulnerabilidade social retiram a capacidade de agência e mobilidade das vítimas, gerando reflexos na educação, na saúde pública e no mercado de trabalho.  

Rose conceitua esse ciclo contínuo de privações e violências como uma engrenagem que afeta diretamente o desenvolvimento do Estado:

"Essa renda que ela vai ter, que não é uma renda estruturada, não é uma renda formal, principalmente porque não é um trabalho formal, ela vai ajudar em casa, mas ao mesmo tempo ela vai sugar este momento de aprendizagem dessa mulher. Com ela mais presa dentro de casa, com a baixa escolaridade, nessa máquina de moer, correndo de um trabalho para o outro, criando filho, tendo que dar conta da vida, etc., ela vai ficar mais sujeita às violências sistemáticas e, e à própria violência contra a mulher” 

A especialista destaca que essa estrutura que normatiza e normaliza essas violências contra a mulher não vai levar em consideração que isso é um problema social. “A mulher que apanha da violência doméstica, na situação de que se normalizou de 'não se meter a colher', a mulher que apanha, ela evade da escola, ela aumenta a taxa de evasão escolar, o atendimento na rede pública de saúde, porque ela vai ser atendida na rede pública, ela vai perder um emprego, porque se a lesão for grave ela vai ficar muito tempo hospitalizada ali, sem poder trabalhar. Então ela não vai para a escola, ela não vai para o trabalho. Então veja que isso já atingiu três áreas da sociedade ali".

Algoritmos e cultura RedPill

O cenário de vulnerabilidade histórica ganha contornos inéditos com a expansão das redes digitais. Análises recentes indicam que o ambiente virtual tem servido de plataforma para a consolidação de movimentos misóginos organizados, como a chamada cultura RedPill, que se vale das fragilidades estruturais para expandir discursos de desumanização feminina.  

O funcionamento dos algoritmos das redes sociais atua como amplificador dessas práticas ao priorizar o engajamento gerado por conteúdos de teor conflituoso, afetando diretamente as franjas mais vulneráveis da população:

"O anuário da violência faz um alerta sobre um movimento que a gente já tá vendo crescer e se estabelecer desde a pandemia com mais força na internet, que é esse movimento e a cultura RedPill. Que é um movimento que desumaniza as mulheres, que prega o ódio às mulheres e a inferiorização e subjugação delas. É esse movimento que acaba se apoiando em vulnerabilidades históricas de gênero e raça, que são agravadas através de assédio e agressões constantes”.

Para ela, os discursos na internet se valem desse sentimento de impunidade e da falta de consciência crítica e de inteligência emocional dos seus membros para poderem lidar com frustrações, com o não, com limites, né, estabelecidos. 

“O algoritmo vai entregando esse conteúdo e vai expondo as mulheres, os jovens e, principalmente, as crianças a uma violência que, por exemplo, as crianças não têm como se defender disso, e o algoritmo acaba então perpetuando, propagando, espalhando essas práticas de machismo e misoginia".

No caso específico da mulher negra, o impacto é cumulativo, incidindo de maneira direta sobre os aspectos psicológicos e a percepção de si. De acordo com a pesquisadora, a legitimação dessas agressões na internet muitas vezes se ancora em distorções de discursos religiosos para justificar a hierarquização de gênero:

"A mulher negra acaba sendo duplamente vitimada com isso, porque são mulheres e porque são negras. E porque esse movimento vai atingir com esse discurso a autoestima da mulher negra. Vamos ter também com isso a subnotificação desses crimes, porque esses discursos são baseados numa lógica machista e violenta de que as mulheres são inferiores e que os homens têm o direito de agredi-las”.

Foto de capa: Lethícia Amâncio