No Sertão de Alagoas, onde a memória é preservada pelas histórias contadas entre gerações, duas comunidades vivem um momento decisivo. Em Poço das Trincheiras, os quilombos Mendes e Vila Carão seguem mobilizados para conquistar o reconhecimento oficial como comunidades remanescentes de quilombo, uma etapa considerada fundamental para garantir direitos, fortalecer a identidade coletiva e abrir caminho para a futura regularização de seus territórios.

Embora compartilhem o mesmo objetivo, as comunidades estão em momentos diferentes da caminhada. A Vila Carão já deu entrada no processo junto à Fundação Cultural Palmares. Já a comunidade Mendes trabalha na organização da documentação necessária para iniciar oficialmente a solicitação.

O caminho é longo. Tudo começa quando os próprios moradores se reconhecem como descendentes de quilombolas e formalizam essa autodeclaração. A partir daí, é solicitado à Fundação Cultural Palmares o certificado de autodefinição. Somente após essa etapa o processo segue para o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), responsável pelos estudos históricos, antropológicos e fundiários que poderão resultar na titulação do território.

“O reconhecimento de uma comunidade quilombola tem início quando ela própria se identifica como remanescente de quilombo. Embora seja um procedimento prolongado, ele é essencial para a garantia dos nossos direitos”, explica Augusto Júnior, coordenador municipal de Promoção da Igualdade Racial de Poço das Trincheiras.

Mais do que um procedimento administrativo, o reconhecimento representa uma afirmação de identidade para quem mantém viva uma história marcada pela resistência.

“Ser uma comunidade quilombola e fazer parte dessa história significa muita coisa. Significa ter a força, a coragem e a fé que os quilombos sempre tiveram”, resume Luciano Honorato, uma das lideranças da comunidade Mendes.

Nem todas as respostas sobre o passado chegaram até os dias atuais. Luciano conta que a origem do próprio nome da comunidade ainda desperta dúvidas entre os moradores.

“Conta-se que, onde hoje é Mendes, antes era conhecido como Mocó. Mas a verdadeira origem do nome Mendes ainda não conseguimos descobrir.”

 

Entre a burocracia e os desafios do presente

Enquanto aguardam o avanço do processo, as comunidades enfrentam dificuldades que vão muito além da papelada. A documentação exigida inclui ata de autodefinição, estatuto, CNPJ da associação, relação das famílias e requerimentos formais, um conjunto de exigências que demanda organização, recursos financeiros e orientação técnica.

“As principais dificuldades incluem a burocracia, a escassez de informações técnicas e os custos com documentação e deslocamentos”, afirma Augusto Júnior.

No cotidiano, os desafios são ainda mais urgentes. Em Mendes, a escassez de água figura entre os principais problemas enfrentados pelos moradores. Na Vila Carão, segundo o líder comunitário Humberto, garantir a sobrevivência das famílias continua sendo uma preocupação permanente.

Apesar disso, a resistência permanece sustentada pela união da comunidade e pela preservação dos costumes.

“Confiança, força, fé, união e sabedoria para debater, conversar e conhecer nossos direitos e nossos saberes”, resume Luciano.

Na comunidade Mendes, a tradição religiosa ocupa papel central. Em dezembro, moradores participam do Tríduo de Santa Luzia, realizado em uma comunidade vizinha. Todos os meses, a imagem da Mãe Rainha percorre as residências e, no dia 18, o Dia da Aliança reúne famílias em momentos de oração.

A culinária também preserva a memória dos antepassados. Receitas como milho cozido, milho assado, bolo de milho, canjica, umbuzada e cocada feita com coco licuri continuam presentes nas celebrações e encontros comunitários.

Outro símbolo de pertencimento é o Mendes Futebol Clube, que disputa partidas com equipes da região, além do artesanato produzido pelos moradores, com peças como tapetes confeccionados com sacolas recicladas, aiós feitos de croá e fogões de argila.

Na Vila Carão, a valorização das tradições segue o mesmo caminho. Uma rezadeira da comunidade recebe moradores e pessoas de localidades vizinhas, mantendo vivos conhecimentos passados de geração em geração.

“Tudo o que se refere às ancestralidades devemos preservar. Mas a união é o mais primordial para manter o equilíbrio entre nós”, afirma Humberto.

 

Apoio institucional fortalece o processo

O avanço das comunidades ocorre em meio a uma estrutura inédita criada pelo município. Poço das Trincheiras foi o primeiro município de Alagoas a aderir ao Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir) e também o primeiro do estado a instituir um Plano Municipal de Igualdade Racial.

Além disso, o município mantém um Conselho Municipal de Igualdade Racial em funcionamento e uma Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial, responsável por acompanhar e orientar as comunidades durante o processo de reconhecimento.

Segundo Augusto Júnior, a criação da coordenadoria representou um marco para as comunidades quilombolas do município, oferecendo suporte técnico diante da complexidade das etapas exigidas pelos órgãos federais.

“A Prefeitura dá total apoio às comunidades quilombolas por meio da Coordenadoria de Igualdade Racial. Isso tem permitido que os processos avancem e que as comunidades tenham mais acesso às informações necessárias.”

A conquista da estrutura institucional foi resultado da mobilização das próprias comunidades junto à Câmara de Vereadores.

Agora, a expectativa se concentra na certificação da Vila Carão pela Fundação Cultural Palmares e no início formal do processo da comunidade Mendes.

“No momento, estamos nos processos finais para sermos reconhecidos pela Fundação Cultural Palmares. Já será uma grande conquista quando isso acontecer”, afirma Humberto.

Para Augusto Júnior, o significado vai além do reconhecimento legal: “Esse reconhecimento simboliza resistência, justiça e dignidade. Representa a validação da história dos ancestrais, que lutaram para sobreviver e deixar esse legado.”

Enquanto os processos seguem seu ritmo nos órgãos públicos, Mendes e Vila Carão continuam fazendo aquilo que há gerações sustenta sua existência: preservar a memória, fortalecer os laços comunitários e resistir. Para seus moradores, o reconhecimento oficial não representa o início dessa história, mas a confirmação de uma identidade que sempre existiu.