Eu adorava, e os da minha geração e próximas também, os epítetos que identificavam os nossos craques de futebol: Rivelino, a patada atômica; Gérson, o canhotinha de ouro;  Jairzinho, o furacão da Copa; Didi, o príncipe etíope. 

Sim, e Pelé?

O Rei, ou simplesmente “Ele”, como o tratavam alguns narradores esportivos de então, em sinal de pura e absoluta reverência. Claro que esses qualificativos fazem parte do nosso saudosismo futebolístico, mas não é apenas disso que esta crônica copeira pretende tratar.

Até porque resgato, aqui, uma memória repetida tantas vezes por Rivelino, um dos meus ídolos do “esporte bretão”, pelo tanto que jogou na seleção e no meu glorioso Fluminense, paixão de Nelson Rodrigues - um dos maiores criadores de distinção dos nossos craques.

Riva conta sempre que nos seus tempos de Corinthians (era o “garoto” que virou “reizinho do Parque”), sempre que jogava contra o Santos, perdendo na maioria das vezes, gostava de ficar na boca do túnel, vendo a turma do Peixe entrar em campo. 

Como ele explicava isso?

- Eu adorava ver aqueles negros musculosos, brilhando, vestidos nos seus ternos brancos, puros, ressaltando o contraste. Era maravilhoso, aquele timaço!

Pois é: ele falava de Dorval, Coutinho, Pelé e Edu - que sucedeu Pepe, o maior artilheiro da história do Santos, depois de ...deixe pra lá. E pra completar o ataque, Mengálvio. Atrás ainda tinha Djalma Santos (pai de Djalminha, outro craque) e Joel, um zagueiro refinado, que chegou a jogar no CRB, após viver uma tragédia familiar. Detalhe: todos negros. 

Não se pode dizer que o futebol brasileiro ficou mais pobre porque embranqueceu. É lembrar que a seleção de 1982, a mais fantástica depois do time do tri, tinha Falcão, Zico e Sócrates, que eram brancos. Daí que fique claro que este texto não é sobre raças (que não existem entre os humanos) ou de cor da pele.

Fato é que o futebol sempre foi, no Brasil, um caminho viável para romper a barreira econômica e social que impede que os negros sejam parte verdadeira da “democracia racial”, tão apregoada pela hipocrisia nacional.

Mas já de algum tempo, venho observando, e acho que qualquer apreciador do futebol também, que as seleções francesa, inglesa e até espanhola (com seu espetacular Lamine Yamal ) vêm ficando cada vez mais negras, e, por coincidência ou não, ganhando destaque no cenário internacional. Lá, como aqui, o futebol é a grande chance de quebra da invisibilidade e para a ascensão social dos negros e imigrantes, de forma geral. 

São os filhos e netos dos que nasceram nas “colônias, mas que foram para esses países europeus  - que exploraram e roubaram tudo o que podiam - em busca de uma sobrevivência mais digna, o que nem sempre encontram. Seus descendentes, eis o busílis, encontram no futebol um prazer barato e uma chance rara de carreira profissional – ainda que para poucos.

O ataque da França, que eu pretendo ver nessa Copa, repetidamente, é: Dembélé, família de origem na Mauritânia; Olise, que é filho de pai nigeriano e mãe franco-argelina, nascido na Inglaterra; e Mbappé, fruto do encontro entre um camaronês e uma argelina. Ou seja: até hoje o país colonizador está no lucro. Basta lembrar que Zidane, talvez o maior craque francês de todos os tempos, é argelino de origem e, não nos esqueçamos, branco.

Quanto ao Brasil, continuamos a produzir grandes jogadores. O nosso último fora de série, por esses tempos, Neymar, também tem sua origem, ainda que remota, na África negra. E as nossas esperanças de futuro são Endrick e Estevão, projetos de craque, que seguem na mesma toada de melanina acumulada. 

Se um dia teremos um novo Pelé?

Pare com isso! 

Talvez seja melhor seguir os antigos locutores esportivos no tratamento minimalista dado ao Rei:

- Ele.