A de aprendizado, B de brasilidade e C de cultura. Toda linguagem começa pelas letras. Em Alagoas, um projeto decidiu fazer o caminho inverso: transformar um dos maiores símbolos da cultura popular do estado em um novo alfabeto.

O resultado é o ABC do Filé, um abecedário criado a partir dos pontos tradicionais do bordado filé. A iniciativa foi desenvolvida por Paulo Accioly, egresso do curso de Práticas Culturais Populares, e por Pedro Zip, estudante da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

O projeto está entre os cinco finalistas do Latin American Design Awards (LAD Awards), considerado a principal premiação de Design da América Latina. A dupla concorre na categoria Tipografia Estudantil, que reconhece trabalhos inovadores desenvolvidos por estudantes da área.

Mais do que uma proposta estética, a iniciativa transforma elementos de uma tradição centenária em uma nova forma de comunicação, conectando o artesanato do Pontal da Barra ao universo do design contemporâneo.

Das redes do filé para o design

O ABC do Filé foi desenvolvido por meio da tipografia dingbat, utilizada para criar caracteres tipográficos especiais. A proposta surgiu da colaboração entre Paulo Accioly e artesãs do Instituto do Bordado do Filé (Inbordal), com o objetivo de transformar os diferentes pontos do bordado em letras.

Segundo Paulo, o processo envolveu encontros presenciais com as artesãs, análise de manuais da técnica e um mapeamento dos pontos tradicionais do filé.

Ao longo da pesquisa, foram produzidos testes e protótipos que ajudaram a consolidar a proposta. O trabalho acabou chegando à São Paulo Fashion Week 2024, onde foi apresentado ao público.

“Foi uma forma de validar a solução no mercado e ampliar a visibilidade do projeto”, resume Paulo.

A etapa de transformar o conceito em uma tipografia digital ficou sob responsabilidade de Pedro Zip, convidado para desenvolver o sistema gráfico do abecedário.

O estudante explica que a intenção não era reproduzir formatos convencionais de letras, mas criar uma lógica própria baseada nos pontos do bordado.

Cada ponto passou a representar uma letra. As vogais foram associadas aos pontos mais simples, enquanto caracteres menos frequentes ficaram ligados a pontos mais complexos, equilibrando a produção e a aplicação da técnica.

Para garantir a implementação da metodologia, a dupla realizou treinamentos presenciais e online com as artesãs envolvidas no projeto.

Reconhecimento além de Alagoas

O primeiro grande salto do ABC do Filé aconteceu em 2024, quando peças produzidas a partir da pesquisa desfilaram na São Paulo Fashion Week, principal evento de moda do país.

Para Pedro, a experiência foi marcante não apenas pelo reconhecimento profissional, mas também pelo significado pessoal.

Morador do Jacintinho, ele conta que nunca imaginou ver um trabalho desenvolvido em seu computador alcançar espaços tão amplos.

“Sou um jovem preto e LGBT do Jacintinho. Quando soube que a tipografia estaria na São Paulo Fashion Week, percebi que aquilo que eu criava podia chegar muito mais longe”, afirma.

Dois anos depois, o projeto alcançou outro marco ao ser selecionado entre os finalistas do LAD Awards.

O reconhecimento também chamou a atenção do perfil oficial de Design do Instagram, que destacou o ABC do Filé como uma tipografia criada a partir de um padrão de bordado tradicional e capaz de transmitir mensagens por meio dos próprios pontos da técnica artesanal.

Impacto dentro da comunidade

Para os criadores, o principal resultado do projeto não está apenas nos prêmios ou na visibilidade internacional.

Ao transformar o filé em linguagem, o abecedário amplia as possibilidades de uso de uma tradição frequentemente associada apenas ao artesanato comercializado para turistas.

Paulo afirma que o reconhecimento externo é importante, mas destaca os impactos gerados dentro da própria comunidade filézeira.

“A cultura alagoana se sustenta por conta própria e temos muitas formas de apresentá-la ao mundo”, diz.

Segundo ele, uma das experiências mais marcantes foi saber que bordadeiras idosas iniciaram processos de alfabetização utilizando o ABC do Filé. “Esse impacto na vida das pessoas não tem preço”, completa.