“Percebemos que muitos assassinatos também decorrem dos próprios familiares. Temos o histórico de cada crime quando os filhos, os netos ou alguém da família subtrai o cartão magnético e desvia os recursos em proveito próprio. Tivemos casos também agora em 2025 de filhos envolvidos com drogas, com álcool, que chegaram a executar os pais.”

A afirmação é do advogado Gilberto Irineu, presidente da Comissão Especial da Pessoa Idosa da OAB Alagoas, e revela a engrenagem interna que impulsionou a violência letal contra a população idosa no estado no último ano. 

O relatório anual divulgado pela Ordem nesta terça-feira (09) aponta que Alagoas atingiu o maior patamar de homicídios contra esse público desde o início do monitoramento, em 2021: foram 37 assassinatos ao longo de 2025, totalizando 167 mortes nos últimos cinco anos.

Dr. Gilberto Irineu.


O diagnóstico detalhado pelo especialista ao CadaMinuto mostra que os números frios das estatísticas escondem um ciclo que começa de forma silenciosa dentro de casa, por meio do abuso financeiro e da retenção de benefícios previdenciários. 

A dependência química e o alcoolismo no núcleo familiar surgem, na análise da comissão, como os principais catalisadores para o desfecho fatal.

A vulnerabilidade é acentuada pela geografia do crime. Dos 37 assassinatos catalogados, 29 ocorreram em municípios do interior (78,3%), frequentemente em sítios e povoados de difícil acesso, onde a ausência de policiamento ostensivo e a desestruturação da rede de assistência social municipal deixam as vítimas sem canais de socorro imediato. 

Apenas oito casos foram registrados em Maceió.

O perfil das vítimas

O mapeamento da violência de gênero indica uma disparidade severa: das 37 vítimas do último ano, 34 eram homens e três eram mulheres. 

Quanto aos métodos utilizados, as armas de fogo lideram as estatísticas com 21 ocorrências, seguidas por 14 homicídios cometidos com armas brancas ou instrumentos contundentes, como facas, facões e foices, além de um caso de espancamento e um de asfixia.

Para além dos conflitos históricos por propriedades ou das ocorrências clássicas de latrocínio, a Comissão da OAB identificou uma nova e preocupante dinâmica criminal atuando nas regiões interioranas.

"Nos anos anteriores e agora também, ocorreram e ocorrem assassinatos também fruto de latrocínios, mas, especialmente, além de ser conflitos por propriedades, temos casos agora em 2025 de grupos de três, quatro jovens que invadem os lares e ali executam as pessoas. Portanto, é interessante estarmos atentos também a isso", pontua Gilberto Irineu.

Se a falta de policiamento dificulta a interrupção dos crimes em andamento, a ausência de uma rede socioassistencial estruturada nos municípios impede a prevenção. 

O presidente da comissão revelou que o vácuo administrativo no interior do estado sabota a detecção precoce dos abusos.

"Percebemos que é necessária uma presença maior nas secretarias municipais de assistência social. Hoje, mais da metade dos municípios ainda não criou nem instituiu conselhos de direitos onde a população possa formular denúncia mais próximo, não só a polícia. Isso é uma debilidade. É necessário que realmente haja um movimento mais amplo no sentido de criar e instituir conselhos de direitos, até mesmo para vir verbas públicas para esses municípios e atender os povoados", denuncia o advogado.

Sem os Conselhos Municipais dos Direitos da Pessoa Idosa, as cidades perdem o acesso a fundos federais e estaduais específicos, inviabilizando a criação de programas de visitas domiciliares ou núcleos de atendimento psicossocial que poderiam identificar o idoso que está tendo seu cartão retido ou sofrendo agressões antes que o caso evolua para homicídio.

Das grotas aos sítios: quebrando o silêncio

Embora o interior concentre a ampla maioria das mortes, o ambiente urbano da capital replica a lógica do isolamento nas periferias. 

Gilberto Irineu destaca que o combate a esse indicador recorde depende diretamente do rompimento da barreira do silêncio e do fortalecimento dos canais locais de denúncia.

"Esse mês violeta é um mês onde é preciso um esforço conjunto de todos nós, no sentido de tornar a sociedade como um todo mais consciente do seu papel, de alertar as comunidades para que formulem denúncias, porque a denúncia é um instrumento de progresso. É alertar as famílias que estão mais diretamente ligadas nas periferias, como na Grota da Alegria, no Benedito Bentes, a Grota do Moreira, no Jacintinho, e a da Vila Brejal, que ao perceber negligência, espancamentos, cárcere privado ou abandono de idosos, formulem denúncia", conclama.

Como desdobramento prático do relatório, a OAB Alagoas acionou formalmente as instâncias superiores de controle e investigação criminal do estado. O objetivo é evitar que a distância geográfica converta os homicídios do interior em números esquecidos nas delegacias locais.

"Esperamos que o Procurador-Geral de Justiça, bem como a promotoria da área criminal da pessoa idosa, não só de Maceió, mas do interior também nos municípios onde ocorreram assassinatos, acompanhem mais de perto para ver se todos esses inquéritos foram instaurados ou não, se foram diligenciados, se foram concluídos e remetidos à Justiça, e em que status se encontram esses inquéritos", conclui Irineu.

A Ordem confirmou o envio de ofícios direcionados ao Ministério Público Estadual e às promotorias criminais das comarcas do interior para exigir a priorização e a elucidação célere de cada um dos 37 casos catalogados.