As ações do movimento Maio Vermelho mobilizaram profissionais de saúde e a sociedade no mês passado, trazendo um debate urgente sobre a prevenção e o combate ao câncer de boca. Embora o período de maior mobilização na mídia tenha encerrado, o alerta precisa ser contínuo, já que a doença não escolhe calendário.
Para entender a realidade do estado de Alagoas, os desafios do diagnóstico e as principais formas de prevenção, conversamos com a Dra. Sônia Ferreira. Ela é odontóloga estomatologista (especialista em lesões da boca) no PAM Salgadinho e na Secretaria Municipal de Saúde, além de professora do curso de Odontologia do Cesmac.
Confira a entrevista na íntegra:
A importância do Maio Vermelho em Alagoas
Segundo a Dra. Sônia Ferreira, o movimento surgiu como uma frente essencial de enfrentamento à doença. Para a população alagoana, a campanha é fundamental para desmistificar o câncer de boca, espalhar informação de qualidade e, acima de tudo, alertar sobre a existência de um tipo de tumor que muitas pessoas nem sabem que existe ou que pode ser prevenido.
O perigo do diagnóstico tardio: Sinais de alerta
Um dos grandes gargalos na saúde pública é que o câncer de boca ainda é descoberto tardiamente na maioria dos casos. A especialista reforça que a população deve ficar atenta a sinais específicos para procurar atendimento imediato:
- Feridas na boca ou nos lábios que não cicatrizam em até 15 dias;
- Manchas ou placas esbranquiçadas ou avermelhadas na língua, gengiva ou bochechas;
- Nódulos (caroços) persistentes no pescoço;
- Dificuldade ou dor para engolir, mastigar ou movimentar a língua.
Perfil epidemiológico e fatores de risco
Os dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) revelam um número alto de novos casos anuais, atingindo principalmente os homens. A Dra. Sônia aponta que o estilo de vida está diretamente ligado a esses índices, destacando como principais fatores de risco:
- O tabagismo em todas as suas formas (cigarro, charuto, palha, narguilé);
- O consumo excessivo e crônico de bebidas alcoólicas (que potencializa o efeito do tabaco);
- A exposição solar prolongada e sem proteção nos lábios (fator muito comum em regiões litorâneas e no trabalho rural).
A crescente relação com o vírus HPV
Nos últimos anos, a comunidade científica acendeu o alerta para a forte relação entre o Papilomavírus Humano (HPV) e o câncer de boca e de orofaringe (garganta). A especialista explica que a prevenção contra essa via de contágio envolve a prática de sexo seguro e, de forma crucial, a adesão à vacinação contra o HPV — disponível gratuitamente no SUS para o público infantojuvenil —, sendo a estratégia mais eficaz para blindar as próximas gerações.
O papel do cirurgião-dentista e do autoexame
Muitas vezes, as lesões iniciais do câncer de boca não causam nenhuma dor, fazendo com que o paciente ache que está tudo bem. É aí que entram duas defesas principais:
- O autoexame: Estimular as pessoas a olharem a própria boca no espelho mensalmente ajuda a notar qualquer alteração visual precocemente, mesmo sem sintomas dolorosos.
- As consultas periódicas: O cirurgião-dentista é o profissional capacitado para identificar lesões precursoras em estágios assintomáticos. Uma visita de rotina pode detectar o que os olhos do paciente não veem.
Impacto do diagnóstico precoce na qualidade de vida
Quando o câncer de boca é descoberto em sua fase inicial, as chances de cura aumentam significativamente, superando os 80% de sucesso. Além de salvar a vida do paciente, o diagnóstico precoce viabiliza tratamentos significativamente mais leves e rápidos, evitando cirurgias extensas ou mutiladoras. Isso preserva funções básicas e vitais da rotina, como a fala, a mastigação, a deglutição, a estética facial e, consequentemente, a autoestima e a qualidade de vida de quem passa pelo tratamento.
Confira o vídeo abaixo:
