Há outras definições, inclusive na psicologia, para empatia. A que mais aprecio, no entanto, é a que nos foi legada pelo filósofo e economista escocês Adam Smith (século XVIII): “Imaginar-se no lugar do sofredor”.
Prima-irmã da compaixão, a empatia encontra forte amparo em Hannah Arendt, filósofa judia alemã, autora de “Eichmann em Jerusalém” (em que desenvolve o conceito tão presente da “banalização do mal”), “A condição humana”, "As origens do totalitarismo", "Homens em tempos sombrios", entre outros clássicos da filosofia e da política. Para ela, seremos tanto mais humanos quanto maior a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro.
Faz parte, a empatia, de todas as religiões e culturas de qualquer região do planeta. É um sentimento, porém, que se desenvolveu antes mesmo daquilo a que chamamos de civilização, ou até do surgimento da nossa tão contraditória espécie.
Frans de Waal foi um primatólogo holandês, morto em março de 2024, que dedicou a sua vida a estudar os chimpanzés e os bonobos, nossos primos mais próximos, com quem compartilhamos um ancestral comum há cerca de seis milhões de anos.
Observando o comportamento dos dois hominídeos – tratar por macacos os grandes primatas é “ofensa pessoal” para esses especialistas –, Waal pôde constatar que eles trazem na sua herança genética, resultado do processo de seleção natural, a capacidade de manifestar “sentimentos morais”, com destaque para a empatia, que leva à ação.
É pungente vê-lo descrever a convivência de Kidogo, um bonobo que sofria de doenças cardíacas, com primatas normais da mesma espécie. Introduzido na colônia já bastante debilitado, em pouco tempo - narra o cientista-, ele passou a contar com a providente ajuda dos vizinhos: "Quando se perdia, gritava aflito e os outros apareciam sem demora para acalmá-lo e guiá-lo".
Se existe hoje um modelo de educação e/ou formação – inclusive profissional – que nos faz renegar a empatia como um valor indispensável à nossa vida em grupo, há simplesmente aqueles que a desconhecem. Ignorando-a, desde sempre.
No seu livro “Mentes perigosas” (que pode nos ser muito útil se não for entendido como um “guia”), a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva nos apresenta a estes seres: os psicopatas. Assim como não sentem nenhuma culpa pelo mal que praticam, eles também não trazem consigo a capacidade de intuir a dor do outro – a empatia, a compaixão.
Detalhe fundamental: eles estão entre nós, vivem “normalmente”, trabalham, comandam e procriam. Fazer acontecer passa a ser, para eles, uma questão de oportunidade. As consequências podem ser danosas, ou até mesmo trágicas para o entorno (não confundir os psicopatas com os loucos, estes mais facilmente identificáveis em qualquer sociedade).
A ausência da empatia inviabilizaria a existência das sociedades humanas, eis uma boa conclusão. E ser movido por ela vai além das bem-querências, como disse do alto da sua sabedoria – de novo, Ricardo? - o jagunço Riobaldo, personagem imortal de Guimarães Rosa:
- O que demasia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.
No mais, se o amor é seletivo, a empatia há de ser universal.
