As raízes dos manguezais ajudam a proteger o litoral, armazenar carbono e servir de abrigo para diversas espécies. Em Alagoas, a preservação desses ecossistemas tem impulsionado iniciativas de empreendedorismo de impacto.
O manguezal sempre foi fonte de sustento para comunidades tradicionais alagoanas. Para Mayris Nascimento, porém, ele se tornou também a base de um empreendimento capaz de unir conservação ambiental, geração de renda e transformação social. O que começou como uma iniciativa de preservação evoluiu para o Nosso Mangue, negócio de impacto que atua na recuperação de ecossistemas, educação ambiental e desenvolvimento comunitário, mostrando que propósito e sustentabilidade financeira podem caminhar lado a lado.
A trajetória, no entanto, não foi construída sem desafios. Antes de estruturar o Nosso Mangue como empresa, Mayris precisou enfrentar uma barreira comum entre empreendedores sociais: acreditar que gerar receita poderia comprometer o propósito da iniciativa.
“Durante muito tempo, eu enxergava a monetização como algo incompatível com causas socioambientais. Acredito que o maior desafio foi compreender que é possível gerar impacto positivo nos territórios e, ao mesmo tempo, construir um negócio sustentável financeiramente”, relembra.
A mudança de perspectiva veio acompanhada de formação, capacitação e amadurecimento profissional. Aos poucos, a empreendedora passou a compreender que a sustentabilidade financeira não enfraquece o impacto social, mas garante sua continuidade.
Quando a causa encontrou o empreendedorismo
A virada de chave aconteceu quando o projeto passou a se inserir no ecossistema de negócios de impacto. Foi nesse ambiente que Mayris encontrou apoio para enxergar o potencial empreendedor da iniciativa.
Segundo ela, o processo de estruturação contou com mentorias, capacitações e conexões que ajudaram a transformar uma ação socioambiental em um empreendimento capaz de gerar receita e ampliar resultados.
“O Sebrae Alagoas teve um papel muito importante nessa trajetória. Foi dentro do ecossistema de negócios de impacto que começamos a entender que o Nosso Mangue também poderia se estruturar dentro desse modelo”, conta.
A partir desse momento, o negócio passou a desenvolver sua atuação de forma mais estratégica, ampliando oportunidades e fortalecendo sua presença no mercado de impacto socioambiental.
Hoje, o Nosso Mangue atua em diferentes frentes ligadas à conservação dos manguezais, promovendo ações de educação ambiental, recuperação de áreas degradadas, compensação de emissões de carbono e experiências voltadas à conexão entre pessoas e ecossistemas.
Os resultados da iniciativa também podem ser medidos em números. Desde o início das atividades, o projeto já promoveu o plantio de mais de 30 mil mudas de mangue branco, preto e vermelho, espécies fundamentais para a recuperação dos manguezais. Para este ano, a meta é ampliar esse impacto com a produção de 70 mil mudas e a recuperação de 50 hectares de áreas degradadas.
As ações de preservação também incluem o combate ao descarte irregular de resíduos. Em uma única mobilização realizada pelo projeto, quase duas toneladas de lixo foram retiradas do manguezal em apenas uma manhã. Já em parceria com o programa Lagoa Limpa e a Prefeitura de Maceió, foram recolhidas cerca de 126 toneladas de resíduos em três meses de atuação.
O trabalho conta ainda com o apoio da sociedade civil. Ao longo dos anos, aproximadamente 189 voluntários participaram das ações promovidas pela iniciativa. Atualmente, um grupo de 25 voluntários fixos contribui com atividades que vão desde mutirões ambientais até apoio técnico e elaboração de projetos.
Muito além da geração de receita
Transformar propósito em negócio também exigiu compreender que o sucesso não seria medido apenas pelo faturamento. Para Mayris, a construção do empreendimento sempre esteve ligada à capacidade de gerar mudanças reais nos territórios onde atua.
“O maior desafio foi entender que o negócio não representa apenas uma fonte de renda, mas também um propósito de vida. É reconhecer o quanto essa missão pode transformar não só a minha trajetória, mas também a vida das pessoas envolvidas nas comunidades”, afirma.
A organização acompanha uma série de indicadores para medir os resultados gerados pelas ações. Entre eles estão o número de famílias beneficiadas, a participação de mulheres e jovens nas atividades, a geração de renda local, a sensibilização de pessoas por meio da educação ambiental e a recuperação de áreas de manguezal.
Além dos dados quantitativos, a equipe também monitora mudanças percebidas pelas próprias comunidades atendidas.
“Buscamos compreender os impactos ambientais, sociais e econômicos gerados ao longo do tempo. Os relatos e transformações observados nos territórios também fazem parte dessa avaliação”, explica.
Os bastidores que não aparecem
Por trás dos reconhecimentos e da visibilidade conquistada pelo empreendimento existe uma rotina marcada por desafios que raramente chegam ao público. Segundo Mayris, grande parte do trabalho acontece longe dos holofotes, em processos contínuos de escuta, articulação e construção coletiva.
“As pessoas não veem as lutas e renúncias pessoais que existem antes de qualquer reconhecimento. O mais importante sempre foi construir soluções junto com as comunidades, e não apenas para elas”, destaca.
Esse modelo colaborativo se tornou um dos pilares da atuação do Nosso Mangue e ajudou a consolidar uma rede formada por lideranças comunitárias, instituições, empresas e parceiros.
O empreendimento segue demonstrando que, em tempos de emergência climática, preservar a natureza também pode ser um caminho para gerar oportunidades, fortalecer comunidades e construir negócios sustentáveis.

