O rápido envelhecimento da população brasileira tem exposto um desafio crescente para famílias e gestores públicos: garantir cuidado e autonomia para milhões de pessoas idosas. Dados da terceira etapa do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), desenvolvido pela Fiocruz Minas em parceria com a UFMG, revelam que uma parcela significativa dessa população enfrenta limitações no dia a dia sem receber o apoio necessário.
Atualmente, o país reúne mais de 32 milhões de habitantes com 60 anos ou mais. Entre eles, cerca de um em cada cinco apresenta dificuldade para desempenhar tarefas essenciais da rotina, como tomar banho, se vestir, se alimentar, utilizar o banheiro ou se levantar da cama. Em números absolutos, isso representa aproximadamente 6,5 milhões de brasileiros.
Apesar dessas limitações, a pesquisa aponta que a maioria dos idosos nessa condição não recebe ajuda regular. Apenas 37,9% daqueles que relatam dificuldades em atividades básicas contam com algum tipo de assistência, deixando milhões de pessoas vulneráveis e com a autonomia comprometida.
O levantamento mostra que as dificuldades funcionais se tornam mais frequentes com o avanço da idade. Na faixa entre 60 e 69 anos, o percentual de idosos com limitações é de 13,9%. Já entre aqueles com 80 anos ou mais, o índice mais que triplica e alcança 44,2%.
As mulheres aparecem como as mais afetadas. Enquanto 23,1% delas relatam dificuldades para realizar atividades cotidianas, entre os homens a proporção é de 17%.
Outro ponto que chamou a atenção dos pesquisadores é a falta de preparação de quem exerce a função de cuidador. Apenas 5,8% das pessoas responsáveis pelos cuidados afirmaram ter recebido algum treinamento específico. O resultado reforça a dependência de familiares e cuidadores informais, que frequentemente assumem essa responsabilidade sem orientação técnica ou suporte adequado.
Além das questões ligadas ao cuidado, o estudo evidencia obstáculos presentes no ambiente urbano. Quase 43% dos idosos que vivem em cidades afirmam sentir medo de cair devido a problemas como buracos, calçadas danificadas ou más condições das vias próximas de suas residências. Entre os mais velhos, com 80 anos ou mais, esse receio atinge 63,1%.
A percepção de insegurança também faz parte da realidade dessa população. Segundo a pesquisa, 12,1% dos entrevistados consideram seus bairros muito inseguros em relação à violência e à criminalidade.
Na área da saúde, os dados apontam que 34,4% dos idosos apresentam níveis compatíveis com hipertensão arterial. O percentual corresponde a cerca de 11 milhões de brasileiros expostos a riscos maiores de complicações como infarto, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência renal e demência vascular.
Para os pesquisadores, os resultados demonstram que o envelhecimento populacional exige respostas que vão além da assistência médica. Questões relacionadas à mobilidade urbana, acessibilidade, segurança, cuidados domiciliares e apoio aos cuidadores são apontadas como fatores fundamentais para garantir qualidade de vida e independência à população idosa.
O estudo também destaca o papel da rede pública de saúde. Cerca de dois terços dos brasileiros com 60 anos ou mais dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto 69,2% estão vinculados à Estratégia Saúde da Família, principal porta de entrada para o acompanhamento contínuo dessa população.
