Dois médicos anestesistas denunciaram formalmente ao Conselho Regional de Medicina de Alagoas (Cremal) supostas irregularidades na realização de anestesias, que podem representar risco à segurança dos pacientes, em hospitais da rede estadual de Alagoas, incluindo o Hospital Regional da Mata, em União dos Palmares; o Hospital Regional do Norte (HRN), em Porto Calvo; e o Hospital Regional de Delmiro Gouveia. 

Segundo o documento entregue ao CadaMinuto, um dos pontos mais graves diz respeito ao fato de os procedimentos estarem sendo conduzidos -  sem supervisão de especialistas - por médicos residentes, profissionais ainda em formação.

Em conversa com a reportagem, a médica explicou que a prática contraria normas da Comissão Nacional de Residência Médica, que determina que residentes atuem apenas sob supervisão e não assumam plantões de forma independente na especialidade.  Ela afirma que, apesar disso, os residentes estariam recebendo como profissionais formados e ocupando escalas completas.

Cópias de algumas dessas escalas foram anexadas à denúncia, entregue no mês de maio ao Cremal.

“A delegação de atos anestésicos de alta complexidade a residentes sem supervisão direta e presencial de especialista expõe os pacientes a riscos graves e imediatos, em especial: ausência de avaliação pré-anestésica qualificada, com potencial subestimação do risco cirúrgico-anestésico individual; manejo inadequado de complicações intraoperatórias em cenários de urgência, incluindo falha de via aérea, parada cardiorrespiratória, crise hipertensiva, broncoaspiração por jejum insuficiente, entre outros;  ausência de retaguarda especializada imediata para tomada de decisões críticas durante o ato anestésico; utilização de fármacos e técnicas anestésicas em pacientes de médio e alto risco sem o suporte adequado de profissional habilitado”, destaca trecho do documento.

Pressão por metas

A médica aponta, ainda, que a situação ocorre em meio a reivindicações de profissionais formados por melhores condições de trabalho e reajustes salariais. Ainda segundo o depoimento, haveria redução no número de especialistas, pressão para o descumprimento de padrões de segurança e para o cumprimento de metas de “produtividade cirúrgica” nas unidades hospitalares, que estariam com estrutura comprometida, e, por fim, retaliação contra aqueles que se recusaram a descumprir os critérios de segurança.

“Os hospitais estão sucateados, com número reduzido de profissionais especialistas e havendo pressão da direção para atingir metas”, destacou a denunciante. Ela conta, também, que integrava o quadro do HRN desde o início das atividades como hospital geral, após o período da Covid-19, e que foi desligada por telefone, após um plantão de 24 horas.

“Fui substituída por residentes, especialistas em formação, cujos plantões devem ser realizados sob supervisão. Estes são bolsistas, com dedicação exclusiva e proibidos de realizar plantões na especialidade, enquanto estão em formação. Essa irregularidade é uma rotina nos hospitais do estado”, completou.

A denúncia aponta para o descumprimento de várias leis, a exemplo da Lei de Residência  Médica, resoluções e outros dispositivos, como o Código de Ética Médica. Ao final, os médicos solicitam ao Cremal, entre outras medidas, a instauração de procedimento administrativo para apuração das denúncias e a realização de fiscalizações nos hospitais citados.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de Comunicação da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) na tarde de ontem (1º) , mas até a tarde desta terça-feira (2) ainda não recebeu o posicionamento da pasta acerca das denúncias.

 

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