Em Alagoas, os números da violência não são apenas métricas em planilhas; são a tradução de uma realidade que, apesar dos debates, permanece estagnada. 

O Atlas da Violência 2026 revelou recentemente que o estado registrou uma taxa de 35,9 homicídios por 100 mil habitantes, um índice que sobe para 39,8 quando contabilizamos as mortes violentas por causa indeterminada. 

Só que, quando o foco se volta para a violência contra a mulher, a estatística ganha uma camada ainda mais sombria: a da invisibilidade dentro do lar. 

Para a Dra. Mayara Heloise Cavalcanti, presidente da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB Alagoas e presidente do Conselho Estadual da Promoção da Igualdade Racial (Conepir), que atua diretamente na linha de frente do atendimento a essas vítimas, o Atlas corrobora uma angústia que ela presencia diariamente em sua prática profissional. 

Dra. Mayara Heloise Cavalcanti

"A estabilidade histórica inaceitável dos feminicídios, apontada pelo relatório, mostra que não estamos lidando apenas com casos isolados, mas com um mecanismo estrutural de dominação que o patriarcado insiste em manter", destaca a especialista. 

Embora o Atlas da Violência indique a necessidade de foco nos territórios periféricos, a análise da especialista aponta que as políticas estaduais falham ao serem tratadas de forma superficialmente transversal. 

A advogada explica que, ao não situar a raça e o território no centro do debate, o Estado acaba por atender prioritariamente demandas de mulheres que já possuem maior acesso a recursos, enquanto a mulher negra periférica permanece invisível às métricas de proteção.

O racismo institucional, segundo a Dra. Mayara , atua como um filtro que molda o atendimento desde o primeiro contato com o Estado.

  • A descredibilização da palavra da vítima ocorre desde o registro da ocorrência, onde a falta de letramento racial dos agentes públicos naturaliza a violência sofrida pela mulher negra.
  • Essa falha sistêmica gera um fluxo excludente: ao não se sentirem acolhidas e ao não encontrarem rede de apoio,, como o aluguel social ou abrigos descentralizados, muitas vítimas desistem do processo ou retornam para o convívio do agressor.

A misoginia que se moderniza 

Um dos pontos mais inquietantes trazidos pelo levantamento nacional é o recrudescimento de uma cultura misógina. 

O Atlas alerta que ideologias contemporâneas, frequentemente disseminadas em ambientes digitais, têm moldado comportamentos juvenis e naturalizado o assédio e a desvalorização da mulher.

No cotidiano da Dra. Mayara, essa "machosfera" deixa de ser um termo acadêmico e se transforma em ameaça concreta. 

A matéria observa como o discurso de ódio online transborda para o mundo real, alimentando a violência doméstica e dificultando que a vítima identifique a agressão antes que ela chegue ao estágio letal.

O desafio da visibilidade

A grande lacuna apontada pelo estudo é que a violência letal ainda atinge desproporcionalmente as mulheres, sendo uma das faces mais cruéis da nossa desigualdade social. 

Para a especialista, o caminho para a mudança exige que a sociedade alagoana deixe de tratar o feminicídio como um "problema privado".

"A tecnologia nos dá agora novas ferramentas, como a plataforma digital do Atlas, que nos permite cruzar indicadores e dar nomes aos números," afirma Mayara. 

O objetivo da profissional, alinhado ao jornalismo que busca escavar as causas profundas da sociedade alagoana, é transformar essa denúncia técnica em um chamado coletivo. 

Afinal, enquanto a taxa de violência contra a mulher permanecer uma constante inaceitável, cada dado do relatório será um lembrete de que o trabalho de proteção, acolhimento e mudança cultural está apenas no começo.