Conhecida pelas praias e pela paisagem entre o litoral e a Lagoa Mundaú, Maceió passou a conviver, desde 2018, com uma nova imagem: bairros esvaziados, imóveis abandonados e áreas interditadas após o avanço do afundamento do solo associado à exploração de sal-gema.

O fenômeno, tecnicamente chamado de subsidência — rebaixamento gradual do terreno causado por alterações subterrâneas — atingiu principalmente a região do Mutange e provocou a desocupação de milhares de imóveis depois do surgimento de rachaduras, tremores e deformações estruturais.

Mais de cinco anos após o início da crise, o trabalho no local já não está voltado para a extração mineral, mas para uma operação considerada uma das mais complexas do país: o fechamento das minas e o monitoramento permanente da estabilidade do terreno.

Em março deste ano, uma equipe da Agência Nacional de Mineração (ANM) acompanhou os trabalhos desenvolvidos na capital alagoana e as ações de fiscalização do encerramento das atividades.

A exploração de sal-gema em Maceió era realizada pela Braskem desde a década de 1970. O mineral, utilizado na produção de PVC, detergentes e produtos farmacêuticos, era retirado de cavidades localizadas entre 800 e 1.200 metros de profundidade.

Segundo técnicos que acompanharam o caso desde o início, o impacto não atingiu toda a cidade, mas se concentrou em áreas específicas onde houve comprometimento do solo.

Após o registro dos primeiros tremores e da mobilização de órgãos públicos e moradores, a atividade minerária foi interditada. Em 2019, estudos do Serviço Geológico do Brasil apontaram relação entre a extração de sal-gema e a instabilidade registrada na região.

Com o encerramento da mineração, iniciou-se uma nova etapa: a execução do Plano de Fechamento de Mina — documento obrigatório que estabelece como devem ocorrer o encerramento das operações, a mitigação dos impactos e o acompanhamento futuro da área.

Em Maceió, o plano passou a ser acompanhado por um grupo técnico específico da ANM.

Atualmente, a área de desocupação e demolição soma aproximadamente 275 hectares. Já a área operacional das minas ocupa cerca de 187 hectares, incluindo trechos próximos à laguna.

Ao todo, o complexo minerário reúne 35 frentes de lavra e, desde 2018, uma das principais ações executadas é o preenchimento gradual das cavidades subterrâneas com areia — técnica conhecida como backfilling, utilizada para reduzir riscos de movimentação do solo.

De acordo com técnicos responsáveis pelo acompanhamento, parte das estruturas subterrâneas deve concluir essa etapa até 2027. Em seguida, o trabalho seguirá em outras áreas localizadas diretamente na camada de sal.

Como as cavidades não são acessíveis fisicamente devido à profundidade, o acompanhamento depende de tecnologia especializada. Hoje, Maceió concentra um dos sistemas de monitoramento geotécnico mais robustos utilizados na mineração brasileira.

Sensores sísmicos, piezômetros, sistemas de posicionamento via satélite, interferometria e modelos geomecânicos acompanham movimentações do solo em escala milimétrica e praticamente em tempo real.

A fiscalização combina análise remota de dados e inspeções presenciais realizadas periodicamente por equipes técnicas. Entre os pontos monitorados estão comportamento das cavidades, vibrações e eventuais alterações geológicas.

Um dos episódios que reforçou a necessidade desse controle ocorreu em 2023, quando a mina 18 apresentou colapso parcial na região da Lagoa Mundaú.

Mesmo após a conclusão das obras de estabilização, o monitoramento deverá continuar por décadas.

Além da segurança geotécnica, permanece em aberto a definição sobre o futuro da área afetada.

Segundo os técnicos envolvidos no processo, qualquer destinação dependerá primeiro da comprovação da estabilidade do terreno. Entre as possibilidades futuras estão áreas com restrição de ocupação, implantação de espaços públicos ou outros usos ainda condicionados aos estudos técnicos.

Enquanto máquinas seguem atuando no preenchimento das cavidades e sensores monitoram cada etapa da operação, bairros antes ocupados permanecem marcados por imóveis vazios e acesso controlado.

Pela regulamentação vigente, o encerramento definitivo da atividade minerária só poderá ocorrer após aprovação final do Plano de Fechamento de Mina pela Agência Nacional de Mineração, mantendo o empreendimento sob fiscalização até que todas as medidas previstas sejam comprovadamente concluídas.

 

*com informações da ANM