Já confessei e reitero: sou um sujeito de hábitos, que muitas vezes se tornam vícios, me ajudando a viver e a tocar os meus dias. Há de se dizer, nem todos me dão um prazer absoluto, mas me equilibram na difícil missão de ser gente que convive e gosta de gente.

Na pandemia, o que era um desses meus hábitos da vida toda virou vício, daqueles que quero carregar comigo até que eu receba o recado, ou nem isso, de que a história acabou – pelo menos para mim.

Voltando um pouco no enredo, na minha infância e adolescência, nada me motivava mais do que o futebol. Fosse para assistir na TV ou no estádio, fosse para tentar praticá-lo.

O cinema, então, era um entretenimento domingueiro, quando um bando, saído da Buarque de Macedo e arredores, seguia beirando as margens do riacho Salgadinho em direção ao Cine Plaza, principalmente (o São Luiz veio depois nas nossas vidas).

Só que, como alertou Riobaldo, do alto da sua sabedoria: “O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando”. 

Pois eis que o futebol perdeu para mim, e para muitos da minha geração, o lugar na primeira fila das preferências, ainda que ocupe boa posição na plateia, e o cinema, que era hábito, virou vício nos anos da Covid-19. Desde então, eu vejo um filme a cada dia/noite, praticamente.

E eu que já conhecia o ótimo cinema argentino, mergulhei fundo na produção artística dos hermanos, pela qual tenho uma admiração maior a cada sessão caseira.

O primeiro grande filme argentino de que lembro é “A história oficial”, uma das mais contundentes denúncias sobre as atrocidades de uma ditadura – alô turma do Brilhante Ustra! -, sem que nos apresente uma só cena de tortura e morte praticada pelos fardados. Ganhou o Oscar, é verdade, mas mesmo que assim não fosse já seria um clássico.

Claro: “O segredo dos seus olhos” é arte na veia, direta, sem intermediários, o que já me levou a assisti-lo pelo menos umas quatro vezes. Só que nas últimas semanas, talvez, pelo intenso noticiário sobre a Copa do Mundo, tenho seguido uma programação da sétima arte com base na produção da Argentina.

Revi muitos: “O homem ao lado”, “Cidadão ilustre”, “Neve negra”, “Nove rainhas”, “Truman”, “Argentina 1985”, “A mesma mulher, a mesma chuva”, “Odisseia dos tontos”, “Crimes de família”, “Relatos selvagens”, “Dois irmãos” (muitos com o excepcional Ricardo Darín) - e ainda as deliciosas séries “O nada” e “Meu querido zelador”.

Descobri recentemente, e ao acaso, “A grande dama do cinema”, com os ótimos Graciela Borges, Luis Brandoni – morto em abril - e Oscar Martinez (também fantástico em “Viver duas vezes”, espanhol de alma portenha – o filme). 

Estou certo de que há muito mais pérolas naquela fonte inesgotável de talento cinematográfico, e eu continuarei garimpando, errando e acertando, mas cheio de esperança de que grandes momentos ainda me virão na tela - com sotaque portenho.

Sim, mas o assunto não era Copa do Mundo?

Pois bem: para os poucos e poucas que me leem aqui nesse espaço domingueiro, uma notícia triste (?): torci pelos nossos hermanos na final da última Copa do Mundo.

Sem culpa e cheio de gratidão.