O perfil dos estudantes matriculados em cursos de licenciatura no país passa por uma transição. Dados do último Censo da Educação Superior, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), apontam que a Pedagogia se consolidou como a graduação com o maior volume de matrículas entre as licenciaturas. 

Paralelamente, os indicadores revelam um crescimento no ingresso de alunos inseridos nas faixas etárias acima dos 50 e 60 anos, impulsionado pela expansão de polos de ensino descentralizados nas periferias e no interior.

Em Maceió, esse cenário reflete-se na busca pela qualificação formal por parte de lideranças comunitárias e trabalhadoras de grandes complexos urbanos, como o bairro do Benedito Bentes e outros, que já atuam na informalidade no cuidado infantil ou em escolinhas comunitárias e buscam o diploma para regularizar a prática pedagógica. 

O fenômeno ocorre em meio à transição demográfica indicada pelo Censo do IBGE, que aponta o envelhecimento progressivo da população alagoana.

O dia 20 de maio, data em que se rememora o Dia do Pedagogo, serve como janela temporal para avaliar os impactos dessa mudança estrutural nas salas de aula. 

Para o pedagogo e doutor em Educação, professor Jaeliton Francisco, o estudante sênior insere no ambiente acadêmico uma dinâmica que difere da conduta dos estudantes recém-saídos do ensino médio.

Prof. Jaeliton Francisco, doutor em Educaçã. Crédito: Cortesia ao CadaMinuto 


"O estudante sênior traz algo valioso para a formação docente, que é o seu conhecimento de mundo e sua experiência de vida", afirma Francisco. "Esse aluno chega à universidade com uma leitura social da realidade escolar, das dificuldades das famílias e das desigualdades educacionais. Isso contribui para o debate acadêmico e fundamenta as discussões pedagógicas."

O ingresso da população idosa ou na maturidade tardia no ensino superior impõe exigências de adaptação para as instituições de ensino, sobretudo no que diz respeito ao uso das plataformas digitais de aprendizagem, que centralizam grande parte da carga horária das licenciaturas atuais.

De acordo com o especialista, o processo de permanência desse aluno exige mediação pedagógica, sem que isso signifique alteração no rigor técnico das avaliações.

"Não se trata de diminuir exigências acadêmicas, mas de reconhecer que existem diferentes tempos e formas de aprendizagem. Muitas vezes esses estudantes demonstram níveis de comprometimento, disciplina e sensibilidade pedagógica equivalentes ou superiores aos de alunos mais jovens", pontua o professor.

Mercado de trabalho e etarismo

A conclusão do curso superior esbarra nas dinâmicas de contratação do mercado de trabalho de Alagoas, onde profissionais mais velhos enfrentam o etarismo, ou seja, o preconceito baseado na idade do trabalhador.

O especialista explica que, embora o mercado corporativo ou institucional muitas vezes priorize perfis mais jovens associados à rapidez tecnológica, a educação infantil apresenta uma recepção distinta por parte das famílias dos alunos.

"Na educação infantil, as famílias valorizam profissionais que têm mais experiência, porque associam essa maturidade ao cuidado, à paciência e à sensibilidade no trato com as crianças", pondera.

O avanço desse perfil estudantil indica a necessidade de formatação de políticas públicas que absorvam essa mão de obra qualificada tardiamente, tanto na rede pública municipal quanto na rede privada de ensino.

O diagnóstico aponta que a sustentabilidade da formação de professores em Alagoas depende da capacidade do sistema de ensino em integrar as diferentes faixas etárias que hoje dividem as salas de aula universitárias.

Ao analisar o panorama da área neste 20 de maio, o doutor em Educação reforça que a composição do quadro docente nas escolas deve refletir essa pluralidade demográfica observada nos dados do Inep e do IBGE.

"A escola atual e a que se projeta para o futuro não podem ser construídas de forma isolada por apenas uma geração. Ela depende do diálogo entre diferentes trajetórias e visões de mundo, elementos necessários para o fortalecimento da estrutura educacional, principalmente na rede pública", conclui Jaeliton Francisco.

Foto de capa: Conecta Piauí