Como todo envelhecente que resolve seguir em frente, eu assumi algumas atividades bem próprias da idade a que cheguei, beirando os 70 anos. Lembrando que só de profissão, como jornalista, eu já passei dos 46 - ininterruptos.
Claro, fico bastante no meu recanto, e cada vez mais, entendendo os versos de Vinicius de Morais, para quem “a casa de homem é um templo/ Um templo sem religião”. Ou seja: por aqui não há embates de fé ou de outras crenças, e cada um acredita - ou não - no que quer. Uma brincadeira, até que sim, mas nada de “guerra total”.
Não é esse, porém, o assunto sobre o qual eu queria falar – foi apenas uma digressão. O papo é outro, e para lá eu caminho a partir de agora, até porque o espaço aqui não é o meu diário, apesar de visitá-lo cotidianamente.
Como frequento vários supermercados, toda semana, mais gente eu encontro de tempos idos ou até mesmo “desconhecidos íntimos”, na definição que deu Nelson Rodrigues para as pessoas que nos tratam com uma proximidade que não atinávamos – o que está longe de ser ruim, na média.
Na semana que passou, eis que fui abordado, na verdade, “acordado”, por uma voz que não identifiquei de pronto:
- Oi, seu Mota!
Era eu?
Sim, era eu.
Cumprimentei-o e esperei a continuidade da conversa:
- Trabalhei com seu pai. Eita velho decente!
(Só para informar: no Palácio, eu sou chamado de “o véio que incomoda”, e por isso sou grato.)
Cheio de incontido orgulho, algo marejado, agradeci e confirmei o dito:
- Sim, eu sei.
Menos do que isso, eu estaria mentindo. Todos os que conviveram com meu pai diziam e dizem a mesma coisa, e, mais importante, a nossa convivência me provou com sobras que o velho Luiz Mota (também o nome do meu filho) era – e sempre será – um sujeito decente, entre tantas outras qualidades e, por óbvio, alguns defeitos.
Quando dizem que eu me pareço cada vez mais com ele, desejo que seja acima de tudo por aquelas, e não por estes – que me perdoem o cabotinismo. Detalhe: não seria assim quando eu tinha meus quinze anos e identificava nele traços que eu não gostaria de ter herdado, mas que agora me parecem essenciais da sua personalidade. A disciplina, por exemplo, que me salvou de uma gigantesca preguiça.
Essa “consciência”, por outro lado, me leva a repetir para Tania, minha mulher, que somos diretamente responsáveis pelas coisas que nossos filhos nunca haverão de levar ao divã de psicanalista. O resto fica por conta dos erros que cada geração comete com a próxima, por mais que aprendamos a identificar nossas vulnerabilidades.
Da mesma maneira que frases sempre repetidas sobre seu Mota me fazem um bem danado, e gosto tanto de ouvi-las, quando alguém elogia meu filho ou minha filha, por serem indivíduos com senso de justiça, de respeito a todos, principalmente aos mais humildes, estufo o peito e digo:
- Eu sei que estamos, eu e Tania, nessa.
E me fica uma esperançazinha de que, no futuro, minhas crias encontrem por aí algum dos meus contemporâneos, sobrevivente, que diga sobre o pai deles certas coisas que me falam do meu.
E que eles acreditem de verdade.
