Paetê, alfaiataria, scarpin, couro, strass e uma explosão de cores vibrantes. Quem passou pelo cinema na última semana, em Maceió, se deparou com um verdadeiro desfile de moda.

Enquanto o Metropolitan Museum of Art recebia, nesta segunda-feira (04), o tradicional tapete vermelho do Met Gala 2026 — longe de Nova York, em terras alagoanas — o clima também é de passarela. 

Sessões lotadas de “O Diabo Veste Prada 2” têm reunido um público que entendeu o espírito da coisa: assistir ao filme também é, de certa forma, fazer parte dele. E isso se vê logo nas filas de cinema, tomadas por looks ‘icônicos’. 

A maquiadora alagoana, Isadora De Luca, entrou no clima da experiência e, ao lado das amigas, assistiu ao filme em um dos cinemas da capital, todas seguindo um dress code inspirado no universo da produção.

“Eu acho que é legal porque, quando a gente se arruma, se sente mais bonita. E é um filme muito inspirador pra isso, pra gente se cuidar, pensar na aparência. A moda comunica também”, conta.

Para uma geração inteira, o primeiro filme nunca foi apenas entretenimento. Foi inspiração e ajudou a moldar personalidades. Para Mayara Lima, jovem de 26 anos e profissional de relações públicas, essa conexão também passa por um lugar afetivo.

Mayara Oliveira,  profissional de relações públicas. Foto: Arcervo Pessoal

“A era da nostalgia está vindo com tudo! Tudo que nos leva para aquela zona de conforto, em uma época que parecia mais leve, nos faz querer voltar no tempo e entrar nesse universo.” compartilha.

Um reencontro mais maduro  

A ideia de revisitar um clássico após tanto tempo sempre carrega um risco evidente: o de estragar aquilo que já estava consolidado. Mas “O Diabo Veste Prada 2” parece entender seu próprio lugar. Sem tentar romper com o passado, e talvez esse seja seu maior acerto.  

Em vez disso, promove um reencontro mais maduro, de uma indústria que também envelheceu, preservando aquilo que é sua marca: a estética marcante, o ritmo acelerado e o fascínio por um cotidiano caótico que, mesmo romantizado, continua sedutor.  

Duas décadas depois, voltamos à revista “Runway”. A trama acompanha a ‘temida’ editora-chefe Miranda Priestly, interpretada pela irreverente Meryl Streep, que se encontra pressionada por um mercado editorial em crise.  

Nesse cenário, Andrea Sachs — a Andy, agora vivida com ainda mais camadas por Anne Hathaway — retorna à narrativa mais madura e menos deslumbrada, enfrentando dilemas que já não cabem mais no encanto do início da carreira.

Ao redor delas, os rostos conhecidos ajudam a sustentar essa transição. Emily Blunt retorna como Emily, agora em outro patamar dentro da indústria, enquanto Stanley Tucci, como Nigel, segue sendo o elo mais humano do universo.

A continuidade não está só na história, mas também nos bastidores. A direção volta a ser de David Frankel, responsável pelo filme original de 2006, ao lado da roteirista Aline Brosh McKenna e da produtora Wendy Finerman. O reencontro desse trio criativo ajuda a explicar por que a sequência soa tão alinhada ao espírito do primeiro filme.

A narrativa avança sobre temas cada vez mais presentes, como o etarismo e os novos rumos do jornalismo — atravessado pela queda do impresso e pela chegada da inteligência artificial às redações —, enquanto expõe a pressão constante do mercado de trabalho.  

É nesse ponto que a história deixa de ser apenas estética e passa a tocar em experiências reais. Mayara se reconhece nesse conflito e diz se identificar.

“Eu sou muito workaholic. É algo que eu ainda estou aprendendo a lidar, separar a vida do trabalho. Porque a gente acaba se dedicando tanto que vai deixando outras coisas de lado: amizade, relacionamento… e o filme mostra bem essas quebras.” relata.

O termo workaholic, usado para descrever pessoas com uma relação excessiva e quase compulsiva com o trabalho, ganha novos contornos na narrativa. Se antes era tratado como sinônimo de ambição, hoje passa a ser questionado.

“Hoje a gente fala mais sobre limites, sobre respeito, sobre cansaço”, observa Mayara. “A geração Z traz muito isso. Então é interessante ver o filme abordando esses temas com a mentalidade de agora.”  

O impacto que não cabe na bilheteria  

Segundo o The Hollywood Reporter, o longa produzido pela 20th Century Studios em parceria com a Disney estreou com desempenho expressivo: foram US$ 77 milhões arrecadados apenas na América do Norte, o equivalente a mais de R$ 380 milhões.

No mercado internacional, o valor chega a outros US$ 156,6 milhões, cerca de R$ 780 milhões. No total, a bilheteria global chega a US$ 233,6 milhões, aproximadamente R$ 1,168 bilhão.  

Mas os números explicam só uma parte. Existe algo mais difícil de medir: a identificação. É sobre se reconhecer, de alguma forma, no “clichê” de personagens que atravessam New York com um café na mão, atrasados, pressionados e sempre à beira de uma grande oportunidade.

A realidade, claro, é menos glamourosa. Mas ainda segundo Mayara, esse sonho, ainda que exagerado, também faz parte do que nos move e foi um dos motivos que a fez escolher sua profissão.

“Era um ambiente que eu idealizava muito, principalmente por envolver moda. Então foi um dos pontos que me influenciou a seguir na área, porque eu percebia que era um ambiente onde eu poderia trabalhar com criatividade — e isso me fez olhar para comunicação com outros olhos.” finaliza.

Em um dos momentos que marcam o final do filme, Andy diz a Emily “você é um ícone”, frase que soa quase como um reconhecimento silencioso para quem assiste. Talvez seja por isso que “Diabo Veste Prada 2” funcione tão bem; por continuar a alimentar em milhões de pessoas essa sensação de pertencimento.