O silêncio do amanhecer desta terça-feira (21) na Praia do Francês, em Marechal Deodoro (AL), um dos destinos turísticos mais procurados de Alagoas, foi quebrado por uma cena preocupante: veículos trafegando irregularmente pela faixa de areia.
O flagrante, registrado por drone por volta das 6h, evidencia um problema recorrente no litoral alagoano: o tráfego ilegal de automóveis em áreas de preservação ambiental, colocando em risco banhistas, surfistas e espécies marinhas ameaçadas, como as tartarugas marinhas.
As imagens foram captadas pelo fotógrafo e morador da região, Juan Victor, que costuma registrar o cotidiano da praia. Segundo ele, o veículo seguia em direção ao trecho entre o Francês e a Barra de São Miguel, passando perigosamente próximo de pessoas que aproveitavam o início do dia.
“Tinha algumas pessoas caminhando na areia, alguns surfistas, outras sentadas, e o veículo chegou a passar muito perto delas”, relatou.
Juan classificou a situação como uma atitude irresponsável, destacando que o condutor aparentava ter conhecimento da proibição.

A área onde o veículo foi visto é considerada um importante local de desova de tartarugas marinhas. De acordo com Bruno Stefanis, diretor executivo do Instituto Biota de Conservação, os danos vão além do risco às pessoas.
Segundo o especialista, o tráfego de carros na areia pode causar:
- Compactação do solo, dificultando a saída dos filhotes dos ninhos;
- Destruição de ninhos, mesmo quando sinalizados;
- Desequilíbrio da fauna e flora, afetando o ecossistema da restinga;
- Prejuízo à biodiversidade local, com impactos diretos em espécies ameaçadas.
“A movimentação desordenada compromete todo o ciclo de reprodução das tartarugas”, explica o biólogo.
O tráfego de veículos em praias é proibido desde 2016, conforme a Resolução nº 01 do Conselho Estadual de Proteção Ambiental (CEPRAM).
A legislação determina que:
- É proibida a circulação de veículos motorizados na faixa de areia;
- A exceção vale apenas para órgãos de segurança e serviços autorizados;
- O descumprimento pode gerar multas e penalidades previstas na Lei de Crimes Ambientais.
A medida busca proteger áreas de nidificação de tartarugas e preservar a vegetação de restinga.

Para Juan Victor, registrar e divulgar esse tipo de situação é fundamental para reforçar a fiscalização.
“As redes sociais são um excelente meio para denunciar, principalmente quando há risco para outras pessoas”, afirmou.
A preocupação da comunidade local aumenta diante da importância ambiental e turística da região. Recentemente, a Praia do Francês foi reconhecida como uma das cinco Reservas Nacionais de Surfe do Brasil, sendo a única do Nordeste com esse título.
Morador desde 2021, Juan afirma que, apesar de ser comum ver veículos estacionados próximos ao coqueiral, o tráfego direto na areia representa um retrocesso.
“É revoltante. Além do risco às pessoas, há todo um impacto ambiental. É uma afronta ao esforço de preservação da comunidade”, lamentou.
