E lá se vão quase vinte anos desde que me deparei com o pequeno-grande livro da escritora francesa Viviane Forrester, “Horror Econômico”. Um libelo contra o modo de vida que impõe a cada pessoa a condição única e indispensável de ser um profissional necessário ao mercado. A obra, provocante e inteligente, ganhou leitores pelo mundo: onde houvesse uma mente irrequieta e inconformada, a contundência da ensaísta e crítica literária encontrava eco.

Dá para imaginar um mundo em que artistas, escritores, gente de alma vicejante, não tivesse espaço para existir? 

Pois é: assim caminha a humanidade, apontou a ótima Forrester. O livro é de 1997, mas está longe de se tornar obsoleto. O puxão de orelha que nos deu a escritora, num momento de rara lucidez da humanidade, vale hoje mais do que nunca. 

A visão de um mundo de relações puramente utilitaristas se multiplica desde algumas escolas a empresas, à imprensa, a instituições em geral. O conhecimento humanista, aquilo que faz sentirmo-nos parte de um todo, é descartável para essa gente. Indispensável, apenas e exclusivamente, a nossa capacidade de superar o concorrente à vaga que almejamos ocupar - na sala de aula ou no ambiente de trabalho. 

É um “darwinismo” pobre e estúpido por ignorar o próprio Darwin, que entendeu que a seleção natural nos deu o equipamento - o cérebro - capaz de nos fazer superar o que poderia ser o nosso “destino”: a vitória, por esmagamento, do mais forte. 

Um leão sempre há de tentar abater seu concorrente territorial, porque isso é parte essencial da sua natureza. A natureza humana, bem mais complexa, pode e deve admitir a coexistência dos mais diversos espécimes da nossa espécie, incluindo os mais vulneráveis e frágeis. Quando isso não acontece, o que é frequente, ficamos menores e jogamos no lixo da história milhares de anos de construção da chamada civilização. 

Shakespeare mantém-se um clássico, quase 500 anos depois de ter escrito suas obras, porque conseguiu mergulhar na alma do homem; o nosso Machado de Assis também é celebrado no mundo inteiro por idêntica qualidade. “Metrópolis”, filme alemão (1927) do austríaco Fritz Lang, nos traz um ensinamento precioso: “O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração”. 

São artistas, estes, que apontaram com clareza: - Nós somos assim, mas podemos ser melhores. Este não é um apelo ao sentimentalismo, mas um chamamento àquilo que nos faz diferentes entre todas as criaturas. Afinal, o entendimento do bem e do mal foi uma criação humana – não a desprezemos.

O jornalista Luis Nassif tem uma definição jocosa para alguns economistas, que se multiplicam nas emissoras e jornais alertando para o “humor do mercado”, esse deus que investe no medo e na multiplicação da riqueza para os já ricos e espertos. O chiste serve muito bem para outros profissionais, que veem o mundo e os outros apenas através de tabelas e números: “cabeças de planilhas”, eis sua debochada sentença. 

Eles formam boa parte da elite dirigente, que vomita conceitos aprendidos em livros-guia, bíblias de ocasião. Imagino que por não terem a oportunidade de uma formação multidisciplinar, em que os clássicos da literatura e a arte em geral devem ser parte obrigatória, apegam-se a seus manuais com a determinação de um fundamentalista de uma religião qualquer.

Forrester, morta em 2013, tem razão até hoje.

“É a cultura da nova escola”; “É a cultura da nova empresa” – asseveram com uma convicção só possível a quem carrega ou busca o poder e grana ao custo de muita infelicidade alheia. A cultura (não a erudição) é uma construção coletiva, erguida ao longo dos tempos. É possível mudar aquela que está estabelecida na sociedade, tenha ela a dimensão que tiver? É claro que sim.

Mas há de se buscar entender o que é o ser humano. Numa analogia possível: as conquistas alcançadas pelos exércitos imperiais, em qualquer período da História, demonstraram que o mais difícil é a “sedução” pela força das armas dos que foram dominados. 

Morto em 2012, o historiador Eric Hobsbawm deu-nos uma dica preciosa, numa frase que revela uma verdade perene sobre nós, sobre as guerras, sobre os homens e seus exércitos:

- As ideias viajam, mas não em tanques de guerra.