Um boa-praça, Gilmar de batismo, gozador por essência, costuma dizer que toda vez que acontece alguma coisa com Jesus ele engorda. Claro: ele está se referindo às mais tradicionais datas religiosas, que foram abraçadas pela população nacional como momentos de celebração.

Filho do Jovane, o corinthiano mais palmerense que eu conheci, Gilmar já me revelou que acha que o que acontece com ele, a engorda, é por castigo, tudo decorrente dos erros que comete – os “pecados”, grandes ou pequenos, desses que quase ninguém consegue se livrar.

(Esclareço aos furibundos que esta crônica não é sobre religião, certo?)

O tal personagem, que curte muito bem a vida, além de manter uma invejável rotina de atleta master, relaciona:

- Natal, o nascimento de Jesus, 2 quilos a mais, pelo menos; Semana Santa, paixão e morte de Cristo, duas unidades de peso a mais; São João, primo de Jesus, e São Pedro, que batizou Jesus, estão juntinhos no calendário só para complicar minha vida: mais 4 quilos. 

Não sei se o citado tem razão, mas é fato que a tradição culinária brasileira, parte herdada da Europa, com maravilhosas contribuições autóctones, capricha nessas efemérides cristãs. 

E como é bom!

Vamos lá.

Estamos encerrando mais um ciclo, o da Semana Santa, em que quem pode se esbalda na mesa com frutos do mar ou de rio: peixe, sururu, camarão e outras iguarias com que o oceano e as nossas imensas redes fluviais nos presenteiam, mas que em regra custam caro, principalmente por essa época.

Como acompanhamentos: arroz de coco, feijão de coco, pirão e, para alguns, o bredo, uma folha que me sabe amarga demais. Mas fica ao gosto do freguês – ele é quem manda.

A balança é que vai exibir amanhã o tamanho dos deliciosos exageros cometidos.

É impressionante como se mantém a busca dos brasileiros, inclusive os de outras religiões ou até ateus, pelos produtos que transformam a mesa do almoço da Semana Santa, principalmente ela, num lugar onde o apetite é entendido e tratado como algo sagrado, a ser respeitado sempre - e nunca contrariado. 

Eu estou nessa, confesso, e só ombreio a Semana Santa, quando o assunto é comida boa e prazenteira, com as datas juninas, e sua culinária à base de milho verde, rememorando as paneladas em forte tom de amarelo que dona Anatildes, minha avó, preparava com tanto talento, o que dona Lucinha, minha mãe, herdou sem negá-lo - embora sua descendência não consiga repetir cheiros e sabores que inspiram saudades e desejos.

Nesta segunda-feira, eis o busílis, estarei encarando também a balança, cabisbaixo, imagino, apesar de um tanto feliz. 

Mas é de se perguntar - seguindo a regra do Gilmar: será que eu tenho pecado demais ou ainda tenho algum crédito para gastar?