A história é verdadeira, mas os nomes dos personagens são falsos, até para que se mantenha a civilidade e alguma amizade entre as partes citadas. 

Pois bem.

Era a inauguração das urnas eletrônicas, essa grande conquista tecnológica e civilizatória do Brasil, que aconteceu na eleição municipal de 1996, com os êxitos esperados e com os problemas possíveis, que foram sendo corrigidos ao longo dos anos.

Um amigo muito querido, Bentinho, funcionário zeloso do Tribunal Regional Eleitoral, viveu aqueles dias de tensão que antecederam e sucederam o pleito eleitoral. 

Alguns dias depois da votação, ele recebeu um amigo de infância, Martins Filho, de família tradicional em Alagoas e que havia sido candidato a vereador - mas que foi humilhado pelas urnas. Como era próprio desse personagem, que ainda vaga por aí, embora tenha desistido de conquistar corações e mentes, ele já chegou ao TRE aos berros:

- A urna eletrônica é uma fraude!

Ante a perplexidade do amigo Bentinho, que o recebera com a cordialidade de sempre, Martins Filho, o candidato esquecido pelo eleitor, desfilou seus argumentos – que logo pareceram incômodos ao servidor da Justiça Eleitoral: 

- Veja aí na sua sessão se tem um voto para mim. Eu sei que você jamais iria me abandonar, porque temos uma história de vida juntos, que não permite traições.

- ...

O silêncio eterno durou alguns segundos. Tempo suficiente para que o bom Bentinho abrisse seu coração e revelasse o raciocínio lógico, de quem leva política a sério:

- Eu não votei em você porque estaria, se o fizesse, elegendo o Ofélio Ratinho, que teve mais votos do que você.

Martins Filho baixou o olhar, acusou o golpe do amigo “traidor”, mas não desistiu: 

- Eu aceito o que você fez comigo, mas tenho outras provas de fraude in-con-tes-tá-veis!

- Faça por escrito, mas não grite, por favor.

O homem derrotado, humilhado e traído aumentou ainda mais o tom de voz e apresentou um argumento que nenhum juiz, por mais ímprobo que fosse, deixaria de considerar:

 - O meu pai! O meu pai! Veja aí na sessão dele. Não consta um voto sequer para mim!

(Esclareço: o candidato não havia chegado a trezentos sufrágios no total.)  

O paciente e envergonhado Bentinho abriu a relação dos eleitores da sessão citada e encarou a dura realidade: nada! 

- Está vendo. Eu fui roubado. Essa é a primeira grande fraude das urnas eletrônicas.

A história ainda estava longe de acabar. Como o serventuário peitado era íntimo da família, ligou na hora para o pai de candidato e contou o ocorrido. 

Inicialmente ouviu um longo e esticado silêncio, mas logo o genitor do ofendido confessou o destino do seu sufrágio, que não havia sido para o herdeiro: 

- Eu votei no candidato que deu um emprego a ele. 

Pediu para falar com o filho. Este, aos berros – “Pai, fui roubado!” –, ouviu a verdade paterna, silenciou, marejou e concluiu seu enredo:

- Eu quero um exame de DNA!