A morte da esteticista Cláudia Pollyanne Farias de Santana, inicialmente tratada como natural, passou a ser investigada como homicídio após a exclusão dessa hipótese no curso das apurações. O caso envolve a Comunidade Terapêutica Luz e Vida, localizada em Marechal Deodoro, e levou o Ministério Público de Alagoas (MPAL), por meio da 2ª Promotoria de Justiça da comarca, a oferecer denúncia contra os proprietários do estabelecimento, um casal, com pedido de prisão preventiva. Uma tia da vítima também foi incluída como partícipe.

Os denunciados são acusados de homicídio mediante tortura e cárcere privado. A investigação reúne depoimentos de outros internos da instituição e o resultado da autópsia, que indicou a presença de elevada quantidade de medicamentos no corpo da vítima. Diante disso, o MP requereu mandados de busca e apreensão no local para recolher documentos relacionados à administração de fármacos.

De acordo com o promotor de Justiça Adriano Jorge, há risco de prejuízo à instrução criminal caso os acusados permaneçam em liberdade, incluindo a possibilidade de intimidação de testemunhas que relataram maus-tratos. Segundo ele, a vítima procurou a instituição em busca de tratamento, mas, conforme apontam os elementos reunidos, teria sido submetida a práticas de violência.

Um dos acusados declarou à autoridade policial que utilizava o golpe conhecido como “mata-leão” para conter internos. A esposa dele também foi apontada na denúncia como participante das agressões e ameaças relatadas por testemunhas.

A denúncia inclui ainda a participação de uma tia da vítima, sob a alegação de que ela contribuiu para a manutenção da internação contra a vontade de Cláudia. Conforme o Ministério Público, o período inicial de oito meses foi prorrogado por mais sete meses sem respaldo médico e sem comunicação aos órgãos competentes, o que caracteriza, segundo a acusação, cárcere privado.

O MP também solicitou a quebra de sigilo de dados e telemático dos investigados, incluindo a análise de dispositivos eletrônicos, mensagens, prontuários médicos e psicológicos, contratos e outros documentos. A investigação abrange o período de 1º de março de 2024 a 20 de agosto de 2025.

O caso

Cláudia Pollyanne teria procurado a Comunidade Terapêutica para um tratamento de desintoxicação, chegando lá acompanhada de uma prima. Para obter o atendimento adequado, no período acertado de oito meses, pagaria mensalmente o valor de R$ 2.700. A vítima, esteticista, tinha boa aparência e ânimo de recuperação, mas, segundo uma psicóloga da referida clínica, após alguns meses apresentou-se debilitada, andando trôpega, com a saúde mental abalada visto a quantidade excessiva de medicamentos que o proprietário a obrigava a ingerir. Embora o contrato firmado tenha sido de oito meses, sendo as mensalidades bancadas pela tia da vítima que mora nos Estados Unidos, e agora aparece denunciada no processo, Cláudia ficou no espaço por mais sete meses em cárcere privado.

Diz a denúncia; “Nos momentos finais da sua angústia, a vítima, como os demais internos (esse vítimas em processo já em curso), era obrigada a ingerir diversos medicamentos em doses cavalares contra a sua vontade, sendo que para ministrar a medicação o acusado fazia uso da força física, especialmente espancamentos públicos (à vista dos demais internos)com especial uso da técnica mata-leão, consistente em um golpe dado por trás da vítima entrelaçando-se os braços no pescoço da vítima até esta ficar inconsciente pelo bloqueio da circulação sanguínea nas artérias (carótidas) que levam o sangue ao cérebro, causando hipóxia cerebral (falta de oxigênio no cérebro) e consequentemente, desmaio, fato esse ocorrido contra a vítima Cláudia Pollyanna, por diversas vezes”.

Outros internos, após a morte de Cláudia e prisão dos donos, encorajaram-se e se dispuseram a falar e relataram que ela , bem como os demais, costumavam ser agredidos com socos no rosto e nas costas, chutes e mata-leão, tornando mais grave a situação do proprietário que também foi acusado de estupro.

“Doparam a vítima, cometeram todas as violências, espancaram covardemente uma mulher que sem a menor chance de resistência morreu. A Cláudia Pollyanna teve traumatismo cranioencefálico, foi constatada morte por asfixia, ou seja, além do espancamento, foi asfixiada. E ainda foram frios ao ponto de criar um roteiro para a morte parecer natural, ou seja, são pessoas perigosas”, diz o promotor Adriano Jorge.

Fármacos

Conforme laudo técnico emitido pelo Instituo Médico Legal (IML), no corpo de Cláudia Pollyanna foram encontradas as seguintes drogas: aminoclonazepam (metabólico); amitriptilina, carbamazepina, clorpromazina, diazepan, fluoxetina, haloperidol, nortriptilina, prometazina e quetiapina comprovando que, antes da sua morte, a vítima estava totalmente dopada, o que, segundo relatos de internos, era rotineiro.

 

*Com assessoria