O percentual de brasileiros que já experimentaram alguma droga ilícita subiu de 10,3% para 18,8% entre 2012 e 2023, segundo o III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), conduzido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O aumento é atribuído principalmente à maior experimentação de maconha, tendência observada também em outros países ocidentais.

Para a psicóloga Clarice Madruga, coordenadora do estudo, o crescimento era esperado devido ao intervalo de 11 anos entre as pesquisas e à mudança na percepção social sobre o risco associado à droga. 

“Em 2012, o consumo de maconha no Brasil estava abaixo da média internacional, enquanto cocaína e crack eram mais prevalentes. O que observamos agora é um aumento ao longo da vida, indicando que, ao longo do período, o consumo de cannabis se expandiu significativamente”, explica.

Mudanças no perfil do consumo

O levantamento também revela alterações no perfil de usuários. Entre mulheres adultas, o uso de qualquer droga ilícita quase dobrou, passando de 7% para 13,9%. Segundo Madruga, a crença de que a maconha poderia reduzir ansiedade ou estresse pode ter influenciado esse crescimento, embora pesquisas indiquem que o efeito da substância pode, na realidade, aumentar o risco de transtornos ansiosos.

Metodologia

O Lenad III avaliou o consumo de 16 drogas ilegais em uma amostra representativa de 16.608 brasileiros com mais de 14 anos, abrangendo áreas urbanas e rurais. Para garantir maior confiabilidade, os participantes responderam a questionários de forma sigilosa em tablets, e os que não sabiam ler ou escrever gravaram respostas em áudio anônimo. O sorteio dos domicílios levou em conta a renda média das áreas, garantindo representatividade nacional.

Perigo para jovens

O estudo destaca que o consumo entre adolescentes e jovens é preocupante. O acesso facilitado e a percepção equivocada de que a maconha é inofensiva aumentam o risco de danos ao cérebro em desenvolvimento, incluindo prejuízos na memória, aprendizado e controle de impulsos.

Madruga defende que políticas públicas eficazes vão além do discurso de “amedrontar” os jovens. A redução do consumo depende de ações integradas, incluindo investimentos em educação, valorização de professores, suporte às escolas e ampliação de opções de lazer e atividades culturais e esportivas, sobretudo em comunidades mais vulneráveis.

“Valorizar a educação é, sem dúvida, uma estratégia de prevenção bastante importante”, afirma a pesquisadora.

*Com informações do g1