Eu era estudante de Medicina na segunda metade da década de 1970, uma época de grandes descobertas e intensas vivências para mim. Havia, então, um professor de anatomia de quem gostávamos muito, principalmente porque ele demonstrava grande prazer de nos revelar os segredos da disciplina que ensinava.
Ia além, porém, o querido mestre: atraía-nos para longas conversas acerca de temas controversos, com suas revelações espetaculares. Uma delas, que guardo comigo, dizia respeito à cura do câncer, que, segundo ele, havia sido desvendada por um cientista francês, perseguido pela poderosa indústria farmacêutica - exatamente por causa da sua descoberta, que acabaria com os lucros bilionários dos empresários perversos.
Fato é que 50 anos depois, o homem ainda pena com essa doença de múltiplas faces, mesmo com os avanços da medicina e das pesquisas sobre novos fármacos, que nos dão até esperança de que nos aproximamos da tão ansiada cura. (Engels dizia que se um mal existe entre nós, a cura está na Natureza – é descobri-la).
Schopenhauer, do alto do seu delicioso mau humor, assegurava que muita gente prefere morrer a ter que pensar. Talvez por isso, ou simplesmente por ignorância sem curiosidade, sejamos vítimas fáceis de gente mais esperta e, perdoem-me, sacana.
Na pandemia, um dia desses, não foram poucos os vigaristas, vendedores de remédios inócuos, que escracharam a vacina contra o vírus da Covid: quem tomasse poderia até virar “jacaré”, diziam. O que estava em jogo, alertavam, era o domínio do mundo pelos chineses. E as mortes só se multiplicaram, diante da credulidade de pessoas de boa alma, vítimas de si próprias.
Mais recentemente, uma nova-velha onda tomou conta de espaços da irracionalidade humana: os ETs estão por aí, espalhados pelo planeta, disfarçados ou escondidos. Só que os governos fazem questão de esconder essas visitas alienígenas. E como a massa – nós – adorou o tema, teve até candidato a presidente da República que prometeu revelar os segredos dos discos voadores no Brasil. Mais um vivaldino à solta.
Enfim, a teoria da conspiração, ampla, geral e irrestrita, já fez muitos estragos na história política humana e não dá sinais de que vai parar de encontrar criadores e criaturas dispostas a acatá-las como a verdade definitiva.
No Brasil, por exemplo, o eterno conspirador e golpista Olímpio Mourão Filho criou o Plano Cohen, um enredo sobre o avanço dos comunistas no Brasil, resultando no Estado Novo, a ditadura Vargas, cruel e covarde, como toda ditadura. Era o ano de 1937, e ele era capitão do Exército. Depois, em 1964, o então general Mourão foi um dos braços armados do golpe militar de 1964 – uma das nossas tragédias coletivas.
Creio, entretanto, que a teoria da conspiração mais letal da existência humana foi o movimento antissemita, que avançou sem freios na Europa no início do século XX – com mais força, inicialmente, na França – e que encontrou no nazismo a sua forma mais “perfeita”. A base eram “Os Protocolos dos Sábios do Sião”, um livro secreto que contava os planos dos judeus de tomarem o mundo. Bem lembramos o que veio a acontecer. (Não confundir os judeus com o Estado de Israel.)
Dezenas de milhões de mortos depois, descobriu-se que a tal obra conspiratória era um arremedo do livro “Diálogos do inferno entre Maquiavel e Montesquieu”, escrito por um ferrenho adversário de Napoleão, o revolucionário Maurice Joly, perseguido implacavelmente pelo tirano.
Continuamos, por óbvio, vulneráveis a enredos que nos pareceriam impossíveis ou improváveis se aprendêssemos a duvidar, parássemos apenas alguns minutos ante as volumosas informações sobre o “mal escondido por trás da porta”, e nos perguntássemos: “Será?”
Creio que seria bem melhor do que repetir e repetir e repetir: o homem é o bobo do homem.
