Ela quase não se inscreveu. Mãe de dois filhos, com a rotina atravessada por reuniões, decisões financeiras e a responsabilidade de sustentar uma startup com recursos próprios, Meline Lopes pensou duas vezes antes de entrar em mais um processo de internacionalização. Já participava também de uma seleção despretensiosa para o Canadá quando um amigo insistiu: “Faz. O ‘não’ você já tem”. Ela fez.
Só depois descobriu que disputava espaço com mil empresas. E apesar de desacreditar, avançou para o grupo das 100 selecionadas para o Web Summit Lisboa, caiu para 30 com maior potencial de exportação, apresentou pitch em inglês entre 18 finalistas, ficou de fora na primeira chamada e, semanas depois, recebeu um novo e-mail. Havia vagas remanescentes. A Sandora estava dentro.
“Quando não fui selecionada na primeira chamada, eu deixei fluir e segui. Hoje eu entendo que aquilo foi decisivo. Se tivesse sido escolhida de imediato, eu não teria ido para o Canadá. Não apostaria em dois países ao mesmo tempo. A rejeição, naquele momento, acabou sendo o melhor cenário para a Sandora.”
Hoje, a startup alagoana de healthtech e compliance atua em 12 estados brasileiros, atende cerca de 17 mil pessoas e já iniciou operação em três países. Tudo isso com apenas seis meses de operação estruturada no novo modelo de comercialização. Em março, Meline desembarca em Portugal para mais uma etapa do processo de internacionalização apoiado pela ApexBrasil, em parceria com o Sebrae. No radar, Canadá e, recentemente, China.
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Não é apenas uma história de expansão. É uma história de mentalidade.
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Muito antes de falar em inteligência artificial, riscos psicossociais e mercado global, Meline era uma menina de sete anos que improvisava o Jornal Nacional na mesa de jantar. “Sempre sonhei em trabalhar com comunicação. Aos 7 anos, eu brincava de apresentar o Jornal Nacional para minha família, já deixando claro que meu caminho seria na comunicação”, lembra.
Filha de mãe solo, ela cresceu entre mudanças de cidade e instabilidade financeira. A mãe, que trabalhou mais de 15 anos no mesmo lugar, priorizando a estabilidade da CLT, decidiu empreender ao abrir uma loja de roupas. O negócio quebrou. O carro da família teve que ser vendido, vieram os apertos, e os pedidos de ajuda até para despesas básicas.
“Eu nunca tive uma vida de privilégios, mas mesmo no aperto, a minha mãe nunca deixou de pagar a minha escola”.
Meline conta que a educação era prioridade, e o inglês também. Conheceu cedo o valor do trabalho. Aos 14 anos, Meline já pagava as próprias contas, trabalhando como modelo. Graduada em Jornalismo, entrou na televisão ainda jovem, atuou como repórter esportiva em ambientes majoritariamente masculinos e, como tantas mulheres, enfrentou situações de assédio moral e sexual. “Eu comecei a adoecer fisicamente”.
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Foi no limite que a virada aconteceu
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Em uma viagem ao Chile, dentro de um avião que ela própria reluta em pegar por medo, Meline conta que enfrentou o medo de olhar pela janela e abriu a persiana, quando viu as montanhas cobertas de neve, seu sonho e objetivo da viagem, chorou.
“Eu disse: é isso. Chorando, falei para o meu esposo que, mesmo morrendo de medo de voar, aquele avião era o veículo necessário para realizar meu sonho. Ali eu entendi que seria igual palestrando ao microfone. Eu iria enfrentar a timidez e começar uma nova jornada. O medo não pode ser o ponto final. Ele precisa ser combustível do veículo”, disse, emocionada.
Naquele momento decidiu deixar o emprego fixo, lançar o próprio nome e empreender na área de comunicação, posicionamento e oratória. Credenciou-se como consultora do Sebrae e começou a atender empresas e profissionais. O empreendedorismo, antes tabu e trauma em casa, tornava-se o caminho.
De marketplace feminino à healthtech global
A Sandora nasceu em 2021, no auge da pandemia por Covid-21, como um marketplace de serviços voltado especialmente para mulheres que estavam em casa, sobrecarregadas pela tripla jornada e buscando renda.
A ideia evoluiu. Com o avanço das discussões sobre saúde mental no trabalho e a atualização da NR-1, que exige a mensuração de riscos psicossociais nas empresas, a Sandora pivotou o modelo e tornou-se uma plataforma tecnológica voltada para compliance trabalhista e gestão de riscos.
Hoje, a empresa combina metodologia internacional – como o questionário de Copenhague, o COPSOC – com inteligência artificial e análise de dados para prever riscos antes que eles se transformem em passivos trabalhistas. A plataforma cruza respostas de colaboradores, palavras-chave recorrentes em atendimentos e frequência de registros para acender alertas preditivos às empresas. Além disso, oferece canal de denúncia, documentação jurídica, capacitações obrigatórias pelas NR-1 e NR-5 e serviços orbitais de adequação normativa.

Determinada e corajosa, Meline transformou medo em estratégia e levou a Sandora para o mundo.
O medo que ninguém vê
Por trás da expansão, há uma CEO que sustenta a empresa com capital próprio e convive com a ansiedade das decisões. “Eu sustento a empresa com verba própria e dá medo de não conseguir, eu patinei muito nesse medo.”
A solidão da liderança feminina é outro ponto que ela não romantiza. “É uma trajetória extremamente solitária. Não tem ninguém lá na frente dizendo: ei! vai por aqui que dá certo. Você é responsável pelo salário de uma galera, e não tem manual pra isso.”
Terapia e exercícios físicos, viraram aliados, assim como cozinhar para a família e assistir a séries de tv, que também são formas de equilíbrio nessa jornada empreendedora. Mãe de dois filhos, ela admite que se cobra mais do que cobraria qualquer outra pessoa. “Eu quero que meus filhos me vejam como uma mãe que prosperou”.
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Sebrae e ApexBrasil
A trajetória internacional da Sandora não aconteceu por acaso. Ela integra o esforço conjunto do Sebrae com a ApexBrasil para preparar pequenos negócios com potencial de exportação.
O programa que selecionou a Sandora incluiu capacitações online, mentorias especializadas, entrevistas em inglês e preparação para pitch internacional, culminando na imersão em Portugal e na conexão com hubs globais de inovação.
O superintendente do Sebrae em Alagoas, Domício Silva, reforça que histórias como a de Meline mostram o alcance das políticas de apoio ao pequeno negócio. “Quando uma startup alagoana conquista espaço em três países, isso não é apenas uma vitória individual. É a prova de que, com orientação técnica, capacitação e acesso a programas estruturados, como os realizados em parceria com a ApexBrasil, o micro e pequeno empreendedor pode sim alcançar mercados internacionais”.
Quando uma startup alagoana conquista espaço em três países, isso não é apenas uma vitória individual. É a prova de que, com orientação técnica, capacitação e acesso a programas estruturados, o micro e pequeno empreendedor pode sim alcançar mercados internacionais
Ambição declarada
Quando Meline foi perguntada sobre legado, não hesitou. “Eu quero que a Sandora seja uma grande empresa. Quem sabe listada na bolsa de valores”, disse, agora sabendo que os sonhos podem ser maiores do que sempre imagina.
Entre mil empresas, a Sandora foi escolhida. Mas a seleção mais decisiva talvez tenha acontecido muito antes – quando uma menina, na mesa de jantar, decidiu que teria voz. Hoje, essa voz ecoa em três países e mostra a milhares de micro e pequenos empreendedores que pensar global não é privilégio de poucos. É estratégia. E o risco é alcançar.
Atualização | Prêmio Nacional de Inovação
Após o fechamento desta reportagem, a Sandora recebeu mais um importante reconhecimento nacional. A startup fundada por Meline Lopes foi anunciada como finalista da 9ª edição do Prêmio Nacional de Inovação, iniciativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do Sebrae que destaca projetos de alto impacto e relevância estratégica para o ecossistema de inovação no Brasil. A empresa alagoana já figura entre as vencedoras da premiação, e a colocação final será anunciada durante a cerimônia oficial no dia 26 de março, em São Paulo.
Glossário
CEO: Principal executiva ou executivo da empresa, responsável pelas decisões estratégicas do negócio.
Compliance: Conjunto de práticas que garantem que a empresa esteja em conformidade com leis e normas vigentes.
Healthtech: Empresa que utiliza tecnologia para desenvolver soluções na área da saúde.
Hub de inovação: Ambiente que reúne empresas, startups e investidores para fomentar inovação e novos negócios.
Marketplace: Plataforma digital que conecta prestadores de serviço ou vendedores a clientes.
Pitch: Apresentação rápida e estratégica de um negócio para investidores, parceiros ou programas de aceleração.
Startup: Empresa inovadora, geralmente de base tecnológica, com potencial de crescimento rápido e escalável.
Think global: Mentalidade de estruturar o negócio para atuar em mercados internacionais, não apenas locais ou regionais.
Web Summit: Evento internacional de tecnologia e inovação realizado em Lisboa, que reúne startups e investidores do mundo inteiro.










