Em Alagoas, o artesanato não nasce apenas das mãos. Ele nasce da memória, da observação silenciosa de uma criança que acompanha a mãe bordando na calçada, ou do menino que aprende a esculpir madeira vendo o pai transformar troncos em animais cheios de vida. Histórias como essas seguem pulsando no estado e estarão reunidas na Artnor 2026, feira que acontece nos dias 19, 20 e 21 de março, no Espaço Armazém, no bairro histórico do Jaraguá, em Maceió.
Entre os artesãos selecionados para participar do evento estão a bordadeira Adriana Gomes, do Pontal da Barra, e o escultor André da Marinheira, de Boca da Mata. Cada um, à sua maneira, carrega no trabalho uma herança familiar que ultrapassa gerações e revela a potência criativa do artesanato alagoano.
Tradição bordada à mão
No Pontal da Barra, bairro conhecido como o reduto das rendas em Maceió, Adriana Gomes cresceu cercada pelo bordado filé. A relação com a técnica começou cedo, quando ainda era criança. Ela conta que aprendeu praticamente sozinha, apenas observando a mãe trabalhar.
Aos seis anos de idade, já reproduzia os movimentos da agulha e da linha. O que começou como curiosidade infantil se transformou, anos depois, em profissão e propósito de vida.
Hoje, aos 47 anos, Adriana lidera a marca Adriana Gomes e representa o grupo produtivo Renda-se ao Filé, formado por mais de 30 mulheres artesãs de comunidades como Pontal da Barra, Barra Nova e Marechal Deodoro.

A bordadeira Adriana Gomes transformou o filé aprendido ainda na infância em negócio coletivo e hoje está à frente do grupo Renda-se ao Filé.
A marca produz peças que transitam entre a tradição e a moda contemporânea, levando o bordado filé para vestidos, conjuntos e criações que já vestiram celebridades e referências da moda brasileira. Para Adriana, continuar essa tradição é motivo de orgulho.
“Estar na Artnor é motivo de muito orgulho. Saber que fui selecionada para participar de um evento como esse mostra que estamos no caminho certo. Não é só a Adriana que está ali, mas todo o grupo de mulheres que trabalha comigo e mantém essa tradição viva.”
Além da visibilidade, Adriana acredita que o evento abre portas para novos mercados e conexões importantes para o crescimento do negócio.
Esculpindo histórias em madeira
A cerca de 70 quilômetros de Maceió, em Boca da Mata, o artesanato também se constrói dentro de casa. Foi ali que André da Marinheira iniciou sua trajetória.
Filho de artesão, ele começou a trabalhar com madeira ainda na adolescência, observando o pai produzir ex-votos, esculturas religiosas e animais para presentear amigos. Na época, o trabalho não era visto como negócio. O pai de André era agricultor e produzia as peças como hobby, para decorar a casa.
“Com o tempo, as esculturas começaram a chamar atenção de visitantes e amigos, até que o fotógrafo Celso Brandão conheceu o trabalho da nossa família e ajudou a divulgar as peças em Maceió”, explica André.
A partir daí, o que era apenas um passatempo se transformou em profissão. Hoje, mais de 40 anos depois, André mantém viva a tradição familiar esculpindo animais em madeira, especialmente felinos, que se tornaram sua marca registrada.
As esculturas são feitas principalmente em madeira de jaqueira e recebem detalhes minuciosos que exigem paciência e precisão. Cada peça pode levar semanas para ficar pronta.
André explica que prefere produzir menos peças, mas garantir a qualidade do trabalho. “Cada escultura tem seu tempo. Eu prefiro fazer poucas peças, mas entregar algo que realmente represente o cuidado e a dedicação que esse trabalho exige”.

Filho de artesão, André da Marinheira mantém viva a tradição familiar esculpindo animais em madeira, onde cada peça nasce do tempo, da paciência e da dedicação ao feito à mão.
A produção acontece no ateliê da família, em Boca da Mata, onde André trabalha ao lado dos filhos. A filha Natália já segue os passos do pai e vem criando peças em miniatura, como pingentes, colares e chaveiros em madeira.
Veterano da Artnor, André participou das primeiras edições do evento, ainda quando ele acontecia no estacionamento do antigo Shopping Iguatemi, em Maceió, no formato de feira.
Para ele, a Artnor sempre foi um espaço importante para divulgar o trabalho e conquistar novos clientes. “Na Artnor a gente encontra pessoas que valorizam o artesanato. Muitos lojistas conhecem nosso trabalho e depois surgem encomendas. É uma oportunidade muito importante”.
Artnor 2026
Considerado o maior evento dedicado ao artesanato autoral em Alagoas, a Artnor será realizada entre os dias 19 e 22 de março, no Espaço Armazém, no bairro histórico do Jaraguá, em Maceió. Com mais de 80 artesãos de diferentes regiões do estado, a feira reunirá arte, cultura, gastronomia e empreendedorismo, com visitação das 14h às 21h.
Promovida pelo Sebrae Alagoas, a Artnor busca fortalecer o artesanato autoral como expressão cultural e oportunidade de desenvolvimento econômico. Nesta edição, o evento traz o conceito “Tecendo o Futuro”, destacando a força do feito à mão e da tradição na construção de novos caminhos para a economia criativa.
Com entrada gratuita, a programação inclui exposição e comercialização de peças, oficinas com artesãos alagoanos e apresentações culturais dentro e fora do Espaço Armazém. As atividades também se estendem pela Rua Sá e Albuquerque, com festival gastronômico, desfile de marcas locais e programação especial no Teatro Homerinho, movimentando todo o bairro do Jaraguá.
Segundo o gerente da Unidade de Competitividade Setorial do Sebrae Alagoas, Henrique Soares, a feira representa uma grande vitrine para o artesanato e para o empreendedorismo criativo.
“A Artnor é um espaço estratégico para fortalecer o artesanato como negócio. Além da visibilidade que a feira proporciona, os artesãos passam por um processo de preparação com consultorias e orientações que ajudam a estruturar melhor suas marcas, ampliar mercados e enxergar o artesanato também como uma oportunidade de crescimento econômico sustentável.”









