Recentemente, li “Humanidade – uma história otimista do homem”, do escritor/filósofo holandês Rutger Bregman. Foi um presente do querido amigo Ricardo Melro, que já marcou seu nome na história de Maceió pela sua luta sem tréguas para reparar as consequências do mal praticado pela Braskem na cidade. O fato é que estou convencido de que ele também não leva ao pé da letra a afirmação do autor, um seguidor apaixonado de Rousseau.
No resumo da ópera: o homem nasce bom, mas o meio é o que o torna um personagem trágico da Natureza. O início do egoísmo humano, cria o filósofo, data do nascimento da propriedade privada - e assim segue Bregmam. É provável que esse evento, de fato, tenha piorado a humanidade, mas creio que o bem e o mal são parceiros no DNA humano desde a origem da nossa espécie – até para nossa sobrevivência e procriação. A história do homem é, também, um enredo de atrocidades que não se cansam de acontecer.
(Creio: nosso duplo mora na mesma alma, os dois lados não necessariamente na mesma dimensão, convivendo cotidianamente, sem que um enxergue o que o outro está fazendo.)
Estão expostos a cada dia, na TV, na internet, os crimes contra a humanidade, o genocídio dos palestinos, as dezenas de milhares de mortes na Ucrânia, no Irã – uma ditadura que cabe ao povo iraniano depor -, as bombas de Trump, ante a perplexidade de muitos e os aplausos de “patriotas”.
Dizia Einstein, em sua sapiência, que "o mundo é um lugar perigoso para se viver, não exatamente por causa das pessoas que são más, mas por causa das pessoas que não fazem nada quanto a isso". Ao final, todos carregamos alguma culpa pelo que fizemos ou deixamos de fazer, ao entregar os nossos destinos a homens perversos. Alguns nem tão notórios quando Hitler, Stalin, Mao ou Pol Pot, mas não menos cruéis, apesar de pouco lembrados pela posteridade. Assassinos frios que trucidaram milhares ou milhões, apresentando-se depois, cinicamente - e com certeza convencidos disso -, como vítimas das misérias humanas. O detalhe fundamental: quase todos pessoas comuns até que alcançassem o poder e o que ele possibilita – para o bem e para o mal.
A festejada Revolução Francesa, um dos principais passos da Humanidade em busca de Liberdade, Fraternidade e Igualdade, foi pródiga na produção de alguns desses personagens. Um deles, Collot d' Herbois, um dos chefes da Revolução de 1789 em Lyon, apresentou sua cândida explicação à Convenção - que governava a França de então - sobre os sucessivos massacres que praticava contra "os inimigos do povo":
- Quisemos poupar a humanidade do deplorável espetáculo de várias execuções consecutivas, por isso os comissários resolveram eliminar todos os condenados num dia, de uma só vez; este desejo nasceu de uma verdadeira sentimentalidade. Sim, fulminamos duzentos condenados de uma só vez, e ainda dizem que cometemos um crime. Será que não sabem que este foi também um ato de clemência?
Entre os criminosos de guerra alemães, seguramente, Rudolf Hoess (ou Höss) não figura entre os mais lembrados e execrados (não confundir com Rudolf Hess, o vice-líder do partido nazista). Pois bem, ele dirigiu o campo de concentração de Auschwitz, uma das mais dolorosas lembranças da Segunda Guerra Mundial. O filme “Zona de Interesse” retrata com perfeição a sua indiferença – seria melhor dizer desprezo - em relação ao que acontecia ao lado da sua casa: no campo, onde corpos eram calcinados, exalando o cheiro da morte.
Ali foram executados cerca de dois milhões e meio de prisioneiros, principalmente judeus, nas câmaras de gás. Uma "invenção" dele, Hoess, que introduziu no seu engenho o mortífero Zyklon B.
Ele? Um "humanista" que agiu forçado pelos superiores e pelas circunstâncias. Ao psiquiatra americano Leon Goldensohn, que o entrevistou várias vezes durante o julgamento de Nuremberg (ele foi condenado por um tribunal polonês, em 1947, sendo enforcado em Auschwitz), Hoess jurou que nunca matou um só prisioneiro - os outros o faziam.
"Eu era brando demais", confessou, para em seguida afirmar que "sentia excessiva simpatia pelos prisioneiros". Os ciganos, a quem coube exterminar? "Meus prisioneiros mais queridos, se assim posso me expressar". Pôde e deixou registrado em livro de memórias um "pungente" depoimento:
- Eu precisava exercer um intenso autocontrole, para impedir que viessem à tona minhas dúvidas mais íntimas e meus sentimentos de opressão (...). Minha pena era tão grande que eu queria desaparecer dali, mas não podia dar qualquer sinal. Tinha de ficar observando hora após hora, de dia e de noite, a extração dos dentes, o corte dos cabelos, toda aquela coisa terrível e interminável. (...) Tinha de ficar olhando friamente, enquanto as mães iam para as câmaras de gás com crianças rindo ou chorando.
Em tempos de revisitar Darwin – e sempre é tempo -, nada melhor do que lembrar o quanto a Evolução foi sábia com a nossa espécie: o homem não tem um predador natural.
E nem precisava.








