À primeira vista, o cenário intimida. No espaço de exames práticos do Departamento Estadual de Trânsito de Alagoas (Detran/AL), homens aguardam a vez para fazer a prova de direção para veículos de grande porte. No meio deles, uma mulher se destaca. Jamily Correia, de 33 anos, é a única representante feminina a fazer a prova para a categoria D da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Em um dia comum, a aprovação dela traz como pano de fundo um cenário maior: o número de mulheres habilitadas em Alagoas ainda é menor do que o de homens.
Ao assumir o volante de um micro-ônibus, a auxiliar administrativa reafirma um desejo antigo: ampliar horizontes. “De primeira, quando eu cheguei aqui, eu achei muito impactante. Até então eles ficavam olhando para você, talvez pensando: ‘O que é que essa mulher tá fazendo aqui? É muito estranho’”, contou. Ainda assim, ela não recuou. Ao contrário. Para Jamily, dar esse passo é também abrir caminho para outras mulheres. “Olhe, eu digo para qualquer mulher que não fique no comodismo e não pense que isso é só do homem. Hoje não tem mais aquele negócio: ‘Ah, isso é só um homem quem faz’. Não. Você tem capacidade suficiente de ir lá e fazer. Tem curiosidade? Vá lá e faça.”
Jamily dirige há sete anos. Ela integra um universo de 209.963 mulheres habilitadas em Alagoas e um grupo ainda mais restrito: 611 mulheres habilitadas na categoria D e 492 na AD, somando 1.103 condutoras nessas categorias. O número total de pessoas habilitadas em Alagoas é de 752.244, dos quais 542.281 são homens. Os dados são referentes a fevereiro de 2026.
A decisão de buscar a categoria D surgiu inicialmente com o plano de sair do país. “Foi uma ideia porque eu pretendia sair do país. Só que eu gostei e tô pretendendo fazer cursos para poder dirigir um ônibus escolar”, explicou. Ela pretendia ir para Portugal e enxergou na habilitação para veículos maiores uma possibilidade de ampliar os horizontes profissionais.
No dia do exame, além de enfrentar o desafio técnico, Jamily também foi avaliada por uma examinadora mulher, o que reforça a presença feminina em diferentes frentes do processo de habilitação. A cena simboliza avanços graduais em um espaço ainda majoritariamente masculino.
Para ela, a conquista tem um significado pessoal. Caçula de 11 irmãos, dos quais seis são homens, ela é a única mulher da família habilitada. “Eu não queria ficar só nessa, ser mais uma. Eu quero ter minha independência e poder ir para onde eu quiser”, afirmou.
Ela lembra que, quando decidiu tirar a primeira habilitação, para a categoria B, ouviu palavras que quase a fizeram desistir. “Meu irmão falou: ‘Você só vai conseguir tirar se for um milagre’. Aquilo me deixou tão para baixo, tão triste.” Mas a resposta veio em forma de aprovação. “Aí eu liguei para ele. Foi o primeiro que eu liguei. Eu disse: Ah, o milagre aconteceu. Eu passei.
”É um orgulho que eu tenho e que eu dou para minha mãe, porque é uma referência para os meus irmãos e minhas irmãs”, disse.
Ela deixa um recado direto: “Não fique acomodada atrás, às vezes pilotando o seu próprio fogão, a sua casa ou só uma moto. Não, vá além, busque o seu crescimento profissional, seja ele dentro do escritório, seja ele num carro, mas se desafie a querer coisas grandes, maiores, que você consegue.”










