A mensagem que chega até nós vem de um passado vivo. Faz-se presente através de uma memória que jamais conseguiram apagar que veio até nossos dias rezada baixo, quase em silêncio, por mais de um século. E hoje é rezada alto, forte e claramente: Tia Marcelina Vive!

O crime abominável de 1912 jamais será esquecido e o “Quebra de Xangô” nunca se repetirá. Mesmo sob a continuidade e persistência das formas diretas ou disfarçadas de ataques às casas de culto e a crescente agressividade do racismo religioso atuais.

Por outro lado, a palavra “Avenida” possui origem e composição a partir do termo latino “Venire”, cujo significado em latim é vir, aproximar-se, chegar. Guardando-se, também, a ideia de caminho, chegada, partida, movimento.

Neste sentido, Mateus Aleluia (1943), em sua grande obra musical “Afrocanto das Nações” (2021), revela de forma poética que o Orixá Lègba é o Senhor e a Liga dos caminhos, é o próprio caminho e a ligação daquilo que se abre e se encerra. Do mesmo modo, Pierre Fatumbi Verger (1902-1996), nos fala, em seu livro “Orixás” (2018), que Èsù é o responsável pela transmissão de mensagens entre os homens e os Deuses. E ainda o protetor das pessoas, dos templos e das cidades.

Mateus Aleluia. Crédito: Alô Alô Bahia

Percebe-se que os operadores da história oficial alagoana ao tentar apagar a memória do Quebra de Xangô (onde se destruiu centenas de casas de culto de matriz-africana, perseguiu, espancou, expulsou e matou o povo de santo e sua maior liderança Tia Marcelina) ignoram que a ligação com o passado e suas mensagens estão a mostrar o caminho a ser seguido. A memória nunca foi completamente apagada. A comunicação permanente e ativa do passado chega aos nossos corações gritando alto por justiça, direitos humanos e liberdade religiosa.

Entende-se que a reparação histórica é um processo contínuo e em construção permanente. A reconfiguração das narrativas da memória e o empoderamento de setores sociais, econômicos e religiosos historicamente marginalizados e discriminados exigem grandes lutas democráticas. O sentido oposto são evidentemente todas as formas de autoritarismo. O maior exemplo alagoano desta violência é o Quebra de Xangô. Em parte, fruto de uma disputa entre grupos da Oligarquia local representados por Euclides Malta, Clodoaldo da Fonseca e Fernandes Lima. E de outro lado fruto da segregação operacionalizada pela violência estrutural e estruturante e sistêmica. Cujo antídoto não pode ser o mesmo autoritarismo-violento. O próprio veneno não pode ser o remédio.

O processo democrático de renomeação da principal Avenida de Maceió agora em curso possui uma grande força simbólica. Pode constituir o caminho de fortalecimento da identidade ancestral do povo de santo e da consolidação da identificação cultural de toda a sociedade em sua ampla complexidade e diversidade.

Pierre Verger. Crédito: Revista Planeta

A transformação de Av. Fernandes Lima para Avenida Tia Marcelina traz à tona o debate, de forma ampla e participativa, sobre o problema da falta da liberdade do exercício religioso, o racismo estrutural, a associação perversa entre política-corrupção e violência e as decisões não populares-e-democráticas das denominações dos logradouros públicos da cidade.

Em Maceió é comum encontrarmos nomes de personalidades desconhecidas do grande público identificando ruas e praças. Através do tempo nomes poéticos e do povo, como: Rua do Banheiro, Alto da Jacutinga, Ladeira do Cortiço, Rua do Açougue, Beco da Estrela, Rua da Lama, Rua do Arame, dentre outros, foram paulatinamente substituídos e esquecidos. A nomeação da Avenida como Fernandes Lima obedece em parte a estas lógicas do poder local.

Apesar da atividade política, inclusive como abolicionista durante parte da juventude, e ter tido como trajetória a Câmara dos Deputados, o Senado e o Governo do Estado de Alagoas, Fernandes Lima (1868-1938) é um dos principais responsáveis pelo maior crime contra os Direitos Humanos no início do século XX em Alagoas e no Brasil. Renomear democraticamente a Avenida para Tia Marcelina (-1912) significa estabelecer um firme posicionamento da sociedade contra a arbitrariedade, o autoritarismo, o desrespeito pela vida.

A valorização e afirmação da diversidade, o fortalecimento da coesão social, a liberdade de culto e de crença são valores democráticos essenciais para que haja uma verdadeira reparação histórica com franca reconciliação e acima de tudo Justiça.

Professor Carlos Vargas

Lègba, a partir da Avenida, nos orienta o caminho do futuro fazendo a ligação entre o passado e o presente, protegendo o legado ancestral do apagamento da memória, abrindo portas de melhores dias, fechando os tenebrosos caminhos do poder violento, egoísta e antidemocrático, onde as diferenças não são admitidas e o desamor impera. A Avenida Tia Marcelina é mais um passo na direção da justiça histórica, no pedido efetivo de perdão do poder público aos seus cidadãos, no reconhecimento dos crimes cometidos pelo Estado, no fortalecimento dos direitos humanos, na valorização da liberdade de crença e no reconhecimento da nossa diversidade cultural.

Em conclusão ao tema aqui abordado cito as seguintes palavras do cientista político português Carlos Vargas, retiradas de seu artigo “A Invisibilidade da Cultura na Agenda 2030”(2025): “(…) sem diversidade não há democracia e sem imaginação não há futuro.” E ainda Pierre Verger sobre Èsù em “Orixás” (2018,84): “Ele matou um pássaro ontem, com uma pedra que somente hoje atirou.” Hoje constrói-se o futuro democraticamente voltando-se criticamente sobre o passado. Respeitando-se as diferenças e utilizando-se da inventividade para construir caminhos de paz.

 

Referências 

Aleluia, Mateus. Afrocanto das Nações 1. Albúm, Spotfy, 30 de novembro de 2021;
Vargas, Carlos. A Invisibilidade da Cultura na Agenda 2030. In: Observador, Lisboa, 13/11/2025. Acesso: https://observador.pt/opiniao/a-invisibilidade-da-cultura-na-agenda-2030/
Verger, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo. Fundação Pierre Verger, Salvador, 2018.

(*) Mestre em Patrimônio pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL).