Ataques xenofóbicos contra nordestinos nas redes sociais voltaram a crescer durante os últimos anos eleitorais, segundo levantamento divulgado pelo G1, no dia 1º de fevereiro. Palavras como “pobre”, “analfabeto”, “ingrato” e “burro” se tornaram recorrentes na plataforma X, antigo Twitter, com aumento de 821% em 2022 em relação ao ano anterior. Em 2018, outro ano eleitoral, a alta já havia sido de 595,5%.

O estudo analisou dados da ONG SaferNet, que recebe denúncias de crimes de ódio na internet, e foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). 

Ao todo, foram examinadas 282 milhões de postagens na rede entre julho e dezembro de 2022, mostrando que menções ao Nordeste triplicaram em outubro, quando Lula (PT) venceu Jair Bolsonaro (PL).

Para entender o impacto em Alagoas em ano de eleição, o CadaMinuto ouviu especialistas, que alertam que o crescimento do discurso de ódio vai além do ambiente virtual e chega a influenciar a percepção social e política no estado.

Efeito do ódio digital em Alagoas

Para a doutora em Ciência Política e professora adjunta da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Luciana Santana, os ataques virtuais se intensificam em períodos de radicalização política. 

“Grupos mais radicalizados, especialmente à direita, se apropriam desse contexto para atacar nordestinos e tentar capitalizar politicamente. É um discurso estratégico, que usa algoritmos das redes sociais para ampliar alcance e gerar repercussão”, afirma.

A especialista lembra que a resposta institucional também é necessária. “É preciso evidenciar a força do Nordeste e os avanços conquistados. A preferência eleitoral da região muitas vezes reconhece políticas públicas bem-sucedidas, não é uma rejeição ao desenvolvimento”, acrescenta.

O cientista político Ranulfo Paranhos, também da Ufal, destaca que o fenômeno se manifesta de maneira diferente entre eleitores e políticos. 

“Enquanto candidatos evitam ataques explícitos para não perder votos, eleitores reproduzem essas narrativas dentro de bolhas. É um discurso interno, que reforça convicções já existentes dentro do grupo, sem buscar adesão externa”, explica.

 

Luciana Santana, cientista política e professora da Ufal – Foto: Ascom Ufal

 

Segundo a professora, o discurso de ódio também influencia a comunicação política, mesmo que de forma indireta. “No cenário local, predominam narrativas econômicas ou ideológicas. Por exemplo, rotular alguém como 'comunista' está ligado a questões econômicas, não apenas à xenofobia. É uma retórica populista que busca mobilizar eleitores, mas sempre com foco em debates sobre economia e política”, afirma.

Luciana Santana reforça que esse tipo de ataque exige atenção das lideranças locais. “Mesmo com forças institucionais, não é possível frear completamente o comportamento xenofóbico. É preciso combinar fiscalização, educação e políticas públicas que reforcem identidade e cidadania”, destaca.

Preparação para 2026

Com a mudança de entendimento do STF sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet, Alagoas se vê em um cenário novo. “Há força institucional para enfrentar a disseminação desses discursos, mas os efeitos ainda atingem a população nordestina”, explica Santana.

Paranhos avalia que a Justiça Eleitoral brasileira, incluindo a alagoana, tem mostrado capacidade de atuação rápida e eficiente. “A Justiça Eleitoral organiza campanhas, regula propaganda, fiscaliza votos e divulga resultados no mesmo dia. Isso demonstra preparo para enfrentar crimes eleitorais, mesmo em casos mais complexos”, acrescenta.

 

Ranulfo Paranhos, cientista político e professor da Ufal – Foto: Arquivo Pessoal

 

Alerta em Alagoas

O aumento dos ataques a nordestinos nas redes sociais acende um sinal de alerta para Alagoas. Especialistas concordam que é preciso atenção redobrada de autoridades, partidos e sociedade civil para que a eleição de 2026 não amplifique essas manifestações de ódio.

Como ressalta Santana, o discurso de ódio é ainda mais perverso quando atinge grupos inteiros, como os nordestinos em Alagoas. “É fundamental enfrentá-lo com educação, informação e políticas públicas que valorizem identidade e cidadania”, finaliza.