Nunca nos damos conta das mudanças pelas quais vamos passando ao longo da vida. Talvez porque elas nunca acontecem de uma só vez, de repente, a não ser em situações extremas.
 
Que nós estamos permanentemente mudando, revendo conceitos, recompondo histórias e memórias, disso não há por que duvidar. Mas saber identificar quando essas alterações acontecem, eis algo que não haveremos de alcançar – pelo menos com o conhecimento que detemos hoje sobre a nossa espécie.
 
Quando a mudança, mesmo a mais profunda, passa a ser evidente para os outros e para nós, aí já é “tarde demais” para voltar atrás. Certamente ela se deu de forma paulatina e cumulativa, sem que a nossa percepção, por mais atinada que seja, pudesse detectar.
 
O novo em nós, como em tudo na Natureza, se gera a partir do “velho”, mesmo que este nos pareça descartável e descartado: nada se transforma no nada, eis uma dívida que carregamos para com os outros que vieram antes de nós e para com a gente mesmo, ao longo da existência.
 
Uma das mudanças mais profundas que consegui identificar em mim foi o fato de ter perdido, não sei quando, mas já faz um bom tempo, o medo da morte. Afirmo-o sem alegria, sem tristeza e com serenidade. Não considero, esclareço, que a constatação seja um sinal de bravura, de destemor, de desabrida coragem de um homem incomum.
 
Pelo contrário: é o “destino” comum a todos os homens que me traz essa certeza única. É como ter desvendado, enfim, Heráclito, sabendo que o rio que passa hoje não é mais o rio que passou em qualquer tempo. Nem por isso deixou o rio de existir, mesmo sendo outras as suas águas. (E se avançamos na mesma compreensão: não é a vida que se acaba, somos nós que deixamos de ser para ela.)
 
Posso observar, também, que outras mudanças ocorridas - e só depois percebidas - estão diretamente relacionadas a esta última, talvez a mais difícil de aceitar, tranquilizadora certamente, a de que a morte já não me mete medo.
 
Eis que, agora, exploro mais aquilo de que gosto e me aproximo ainda mais daqueles cuja amizade e companhia me proporcionam conforto à alma, para além das convivências inevitáveis. O que, ao final, traz um valor ainda maior ao surgimento de alguém ou de alguma novidade que me traga encantamento.
 
Não entendo, por outro lado, que seja uma condição que leve ao conformismo, à rendição. Pelo contrário, a consciência da finitude, da brevidade, sem dúvida me arrastou por caminhos talvez perigosos demais, para muitos. É possível que não fosse assim, se ainda carregasse comigo o temor comum a quase todos os mortais (que não admitem sê-lo). Mas repito: talvez e só talvez. E assim eu vou seguindo, até que a morte nos separe.

A morte é iminente ao primeiro segundo da vida, ensinou o escritor Fernando Savater, numa variação sobre Schopenhauer (e outros que vieram antes dele). Foram muitos os homens da ciência, da filosofia, das artes e da poesia a tentar estancar o medo da morte, ou simplesmente abrir a porta para recebê-la como a alguém de cuja intimidade compartilharam. 

Nessa arte de amansar a dona dos homens, disse Montaigne: 

- Espero que a morte me encontre plantando as minhas couves.

Bem, eu não planto couves, aliás, não planto nada que mate a fome dos bichos e dos homens. Meu cotidiano é bem simples, prosaico, mas cheio de coisas de que gosto e das quais gostaria de usufruir até o último segundo, que poderia ter sido o primeiro, na observação de Savater.

E a despedida?

Que ela venha sem aviso, se possível.