No início de maio deste ano, o governo federal informou que o Brasil se tornou um país livre da febre aftosa sem vacinação animal. A autodeclaração aconteceu após o fim da última campanha nacional de imunização contra a febre aftosa em 12 estados e parte do Amazonas.
Para conceder a declaração de país livre da febre aftosa sem vacinação, a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) exige a suspensão da vacina contra a febre aftosa e a proibição de ingressos de animais vacinados nos estados por, pelo menos, 12 meses. O Brasil deve apresentar o pleito em agosto deste ano e o resultado, se aprovado, será apresentado em maio de 2025.
Apesar de ser um assunto bastante conhecido entre produtores de gado e agropecuaristas, a febre aftosa não é muito conhecida entre a população em geral. Há dúvidas sobre o que é a doença, sobre sua transmissão, sintomas e se humanos podem ser infectados.
Diante de tantas dúvidas, o CadaMinuto conversou com a veterinária e especialista em animais de grande porte, Taíne Soares. A médica explica os questionamentos e fala sobre como os produtores devem proceder ao notar que o animal está com a doença. Ela alerta ainda que o prazo para a declaração de vacina do rebanho já expirou, mas o produtor pode procurar o órgão responsável para prestar esclarecimentos e evitar multa ou interdição da propriedade.

Confira a entrevista:
O que é a febre aftosa e quais as principais formas de transmissão?
A febre aftosa é uma enfermidade infecciosa, altamente contagiosa causada por um vírus do gênero Aphtovírus, que pode afetar bovinos, bubalinos, suínos, ovinos e caprinos. O primeiro caso foi descrito em 1514, na Itália. A doença pode ser transmitida de forma direta pelo contato entre animais infectados ou inalação de partículas virais contidas em secreções e excreções, como: saliva, fezes, urina, leite e sêmen; ou de forma indireta através de objetos, como: sapatos, roupas, seringas, agulhas, ordenhadeira. O vírus pode permanecer viável na forma de aerossóis e ser distribuído entre longas distâncias.
Como combater a febre aftosa?
Com o objetivo de concentrar esforços na luta contra a enfermidade, foi criado em 1951 o Centro Pan-Americano de Febre Aftosa (Panaftosa) e, a partir de então, iniciaram-se projetos. O Brasil iniciou o combate em 1963, organizando as campanhas de vacinação em algumas regiões do país, esse plano sofreu ao longo dos anos várias reformulações, implantando progressivamente as zonas livres com vacinação. Em 2007 a Organização Mundial de Saúde Animal – OIE, reconheceu a primeira zona livre de febre aftosa sem vacinação no país.
Como o produtor deve proceder em caso de suspeitas da doença?
Os principais sinais clínicos da doença são: febre, emagrecimento, vesículas (bolhas) nas regiões de palato, lábios, gengiva, narinas e espaços interdigitais (entre os dedos). Lembrando que são sinais rápidos, em cerca de 10 dias as vesículas podem ter desaparecido, mas o vírus permanece na faringe por longos períodos. Em caso de suspeita é essencial chamar um médico veterinário para que seja feito o diagnóstico e comunicar ao órgão de Defesa agropecuária, como a ADEAL (Agência de Defesa e Inspeção Agropecuária de Alagoas), aqui no estado, para que sejam feitos exames laboratoriais dos fluidos ou tecidos do animal e confirmar a suspeita.

Qual a importância da vacinação contra a febre aftosa?
Com a publicação da Portaria do MAPA 678 em 30/04/24, está proibido o armazenamento, a comercialização e o uso de vacinas contra a febre aftosa , exceto em casos mediante a autorização do Departamento de Saúde Animal da Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura e Pecuária, pois, no momento do diagnóstico, a diferenciação entre animais vacinados e naturalmente infectados é um problema que pode gerar falsos-positivos que precisam ser submetidos a testes confirmatórios, aumentando o custo do diagnóstico, além de demandar maior intervalo de tempo para a liberação dos resultados.
Sabemos que são raros os casos de aftosa em humanos. No entanto, de que forma a febre aftosa pode afetar a saúde humana?
Os raros casos descritos da doença em humanos, são de caráter benigno, com febre e lesões vesiculares na boca e nas mãos de ordenhadores e indivíduos que manipulam carcaças de animais abatidos ou vírus em laboratório.
O Governo Federal declarou que o Brasil está livre da aftosa. O prazo para declarar a vacinação se encerrou no último dia 15 de maio. Não é contraditório dizer que o país é área livre quando o prazo para declaração de vacina ainda não tinha se encerrado? Por quê?
O último caso identificado no país ocorreu em abril de 2006, ou seja, são 18 anos sem nenhuma ocorrência. O Departamento de Defesa Sanitária Animal – DAS, iniciou as discussões para reformulação do Programa Nacional de Erradicação e Prevenção da Febre Aftosa (PNEFA) em 2007, e ao longo dos anos foram ampliando as zonas livres de Febre Aftosa, resultando no reconhecimento internacional pela Organização Mundial da Saúde – OIE. As campanhas de vacinação foram o principal instrumento para alcançar o status atual do país, mas outros fatores também foram importantes, como: a ausência de transmissão/infecção viral demonstradas através de diversos estudos soroepidemiológicos realizados ao longo dos anos, e a incorporação progressiva absoluta de todas as regiões do país em zonas livres com e sem vacinação, que criaram e mantiveram condições sustentáveis para garantir o status de país livre sem vacinação.
Qual a punição que o produtor pode sofrer caso não declare a vacinação?
O produtor que fez a vacinação, mas não declarou está sujeito a multa e interdição da propriedade. Já o produtor que não conseguiu adquirir a vacina até 30 de abril deve ir até a unidade mais próxima da ADEAL para fazer os esclarecimentos até dia 31/05.
