Pouco conhecido em nossa sociedade, o Janeiro Branco se trata de uma campanha que, cada vez mais, vem ganhando seu espaço. O tema tem como objetivo debater sobre a importância dos cuidados com a saúde mental.
Apesar do assunto ser visto como um tabu para muitas pessoas, a realidade é que o número cada vez mais alto de pessoas com doenças mentais dos mais variados tipos, liga um sinal alerta, e que é preciso, também, não só se cuidar, mas conhecer mais sobre o assunto.
Mas o que é uma doença mental?
O termo é usado para se referir aos transtornos mentais ou distúrbios psíquicos, e se trata de uma condição que afeta o estado emocional do indivíduo, bem como a sua vida de modo geral. Esses distúrbios psíquicos provocam mudanças no modo de pensar e agir, e por isso é preciso conhecer mais sobre o assunto, e compreender as formas de abordá-lo.
Sobre o tema, o Cada Minuto conversou com Helouise Vieira, graduada em Psicologia, que explicou melhor sobre a importância em falar sobre cuidados com a saúde mental no Brasil. Confira abaixo as respostas na íntegra:

• Qual a importância de falar sobre saúde mental no Brasil?
– A saúde mental vem ganhando cada dia mais relevância em âmbito mundial. E no Brasil não tem sido diferente, visto que o número de casos de transtornos relacionados à saúde psíquica só tem aumentado no decorrer dos anos, principalmente, após à pandemia da COVID-19, que aumentou o número de casos de depressão e ansiedade.
• Quais os melhores hábitos, no dia a dia, que contribuem na boa saúde mental da população?
– Buscar manter o equilíbrio da mente e do corpo através de hábitos saudáveis e que façam sentido para a pessoa que pratica. Por exemplo, se não gosto de treinar, não adianta ir à academia porque está na moda, se fazer uma caminhada no parque faz mais sentido e é prazeroso para a sujeito. As duas atividades trarão os mesmos benefícios físicos. Sendo que, ao fazer algo que não gosta a pessoa pode acabar se frustrando e causando uma cobrança a mais para si, o que prejudica seu bem-estar mental.
• Quais os sinais que podemos identificar em relação a uma pessoa que está precisando de ajuda nestes casos?
– Uma pessoa que esteja vivenciando, por exemplo, um transtorno depressivo, mesmo de grau mais moderado, apresentará um grau de tristeza muito grave ou persistente, o que pode acabar interferindo em seu dia a dia, diminuindo o seu interesse ou prazer em suas atividades diárias. Contudo, é importante frisar que, para que esse sujeito seja diagnosticado, é preciso passar por um profissional gabaritado.
• Quais os impactos das redes sociais na saúde mental de modo geral, seja em jovens, adultos e idosos?
– As redes sociais têm afetado a saúde mental em todos as faixas etárias quando se fala de aspectos relacionados a quantidade de tempo passado nas redes sociais. Mas se torna ainda mais preocupante no público infanto-juvenil e jovens adultos por poder ter uma influência negativa por busca de uma vida perfeita que observa-se nas redes sociais.
• Quais a melhor forma de promover campanhas voltadas para o Janeiro Branco?
– Além das campanhas de promoção e prevenção realizadas por profissionais da área de saúde mental que são realizadas através das redes sociais, mídias e em espaços diversos como debates em escolas e universidades. A campanha “Janeiro Branco” tem por iniciativa incentivar a sociedade a se aproximar mais das questões relacionadas ao sofrimento psíquico. Considerando que os estados de sofrimento são multifatoriais e constituídos a partir da relação da pessoa com seu meio social.
• No ambiente de trabalho, como podemos agir de modo que a saúde mental esteja devidamente equilibrada?
– O equilíbrio da saúde mental está relacionado a um estado de bem-estar. Quando se trata de ambiente de trabalho, é preciso equilibrar os relacionamentos internos e as demandas para que o sujeito não acabe sobrecarregado e caindo em adoecimento emocional.
• Qual o nível de importância do acompanhamento psicológico nestes casos?
– O acompanhamento psicoterápico ajuda no autoconhecimento, além de permitir que o sujeito tenha um espaço de acolhimento.
O Cada Minuto também conversou com a estudante de jornalismo da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Darlanny Ribeiro, que faz uso desse serviço de atendimento psicológico. Ela conta que preferiu não dividir suas idas à terapia com seus familiares, e que antes havia dificuldade para poder se expressar diante dos seus problemas, e que precisou passar por alguns profissionais até que encontra-se o método correto que a auxiliasse no seu dia a dia.
Confira abaixo as respostas sobre a experiência dela com o atendimento recebido:
• Você teve receio, no começo, para buscar ajuda de um profissional?
– Eu tinha muita... Acho que vergonha, receio, medo, sentimentos que fazem parte quando a pessoa pensa que precisa de alguma ajuda psicológica e como é que vai dar o primeiro passo. Então eu tive a ajuda de uma amiga que já fazia atendimento psicológico, ia para uma psicóloga, e ela me incentivou muito a ir. Isso foi na minha infância – eu tive algumas psicólogas na infância. Tive duas, mas não deram muito certo. E agora, na fase adulta, minha última psicóloga (que é a atual), eu já tinha 20 anos, já na faculdade, no SPA (Serviço de Psicologia Aplicada), dos alunos do curso de psicologia. Eles atendem, tipo um estágio mais avançado no final do curso e eles fazem esse atendimento. E foi lá que encontrei minha psicóloga, e que estou com ela até hoje, desde 2018. E esse também foi por incentivo de uma amiga. Sempre que busquei atendimento foi por incentivo de amigas.
• Seus familiares e/ou amigos próximos tiveram conhecimento do seu caso? Se sim, qual a forma que eles reagiram? Você teve apoio para buscar ajuda?
– Sobre minha família, não compartilhei com eles. Só o primeiro caso que eu busquei uma psicóloga, eu tinha 12 anos, e como eu era menor de idade, minha mãe sabia. Então contei para ela, mas ela não teve uma reação muito positiva e acolhedora. Então, não que ela tenha me julgado, mas ela também não entendia o que estava acontecendo. Porque na época, como eu era uma criança, eu não abria muito com ela, então a partir dessa experiência não muito positiva, eu fui levando as outras experiências que eu tive com psicólogo sem contar para ela. Até hoje não contei, e a única pessoa que sabe é a minha irmã mais velha, e ela sabe e sempre pergunta se estou indo. Mas minha família, mais local, que moram perto de mim e tem mais contato, eles não sabem. Minha irmã que sabe mora em São Paulo. Então escolhi lidar, entre aspas, sozinha, com isso, sem preocupar e sem dar explicações para minha família.
• Durante este período em que faz terapia, você disse que já superou a questão da auto mutilação. Além disso, quais outros benefícios você notou que te ajudaram e te ajudam nos dias atuais?
– Fazer essa auto análise é muito importante, porque já são anos de terapia. Eu tinha muitas crises de ansiedade, e na época em que eu estava em um determinado trabalho, me fazia muito mal. Mas mediante a conversação da terapia, eu fui diminuindo significativamente os números de crises de ansiedade. Acho que hoje nem tenho. Tive uma no meio do ano passado (2022) e faz um bom tempo. Me ajudou muito nisso também, porque eu tinha muitas crises de ansiedade no trabalho que eu tinha, um trabalho que já saí dele tem dois anos.
Eu não sabia muito lidar com essa questões, meus medos, as minhas inseguranças, sentimentos que eu tinha. Não sabia interpretá-los, lidar com eles, botar para fora e expressar o que estava sentindo. Hoje consigo me expressar bem para as pessoas que estão ao meu redor, para a minha própria psicóloga também. Claro que vez ou outra tenho problemas, alguma coisa que mexe com as emoções da gente, mas que mediante a blindagem que criei em mim, a força que fui criando aos poucos com a terapia, eu consigo lidar de forma cautelosa, sem deixar que aquilo me magoe, me deixe pra baixo, como eu me sentia antes, no início da terapia. Agora eu consigo ser mais transparente com minha psicóloga. Era um problema que eu tinha muito.
• Você acha que falta meios mais fáceis e acessíveis para a população ter esses serviços ofertados por parte dos órgãos públicos de saúde?
– Acho que, infelizmente, a população carece desse tipo de atendimento psicológico. Claro que tem aquele tabu, de que muita gente tem um certo preconceito, de ter vergonha, de não saber como funciona, como buscar. Eu já passei por isso no início, mas vejo que falta muita acessibilidade desse tipo de serviço para as pessoas. Lembro que quando eu estava sem terapia, busquei vários meios nesse intervalo. Eu estava na adolescência e passando para a fase adulta, na faculdade, e eu só vim conseguir atendimento psicológico na faculdade depois de dois anos que eu já estava no curso. Mas eu não estava esperando, eu não estava numa lista de espera. Graças a Deus, quando eu fui em busca, pouco tempo depois já entraram em contato comigo e eu comecei o atendimento. Mas no período da pandemia, pesquisei esse tipo de atendimento para algumas amigas e estava muito difícil. A lista de espera na SPA (Serviço de Atendimento Psicológico) era muito grande. Outros lugares, em outras universidades, também oferecem esses serviços, porque eles tem consultórios, mas também estavam em uma lista de espera muito grande, porque muitas pessoas estavam buscando esses serviços. Entendo que ele aumentou muito na pandemia porque as pessoas perderam entes queridos, lidar com isolamento, com perda de emprego, com a situação pandêmica em si que o país estava vivendo. Aumentou a busca durante a pandemia mas não aumentou os serviços.
Então existe uma carência muito grande, e existe uma carência muito grande até de qualificação dos profissionais pra entender, porque eu passei por muitos profissionais diferentes, com métodos diferentes, até encontrar uma que tivesse um método que me auxiliasse. E eu entendo que, às vezes, pela falta de oferta, muitos pacientes ficam dentro de um método com um psicólogo que, às vezes, não lhe ajuda tanto. Mas ele sabe que se deixar ali, não tem outro lugar para buscar (ajuda). Aqui, em União dos Palmares, antes de 2018, quando eu morava aqui, a oferta era muito pouca. Tinha um posto de saúde, mas tinha dois (psicólogos) que vinham uma vez na semana, mas não atendiam todo mundo. Atendiam uma população de uma rua, na oitra semana de outra rua. Uma oferta muito pequena. E até fora dos postos de saúde, em outros lugares, era uma vez ao mês. Enquanto assim, quando você tem um problema muito delicado – que não é o meu caso –, essa oferta não pode ser uma vez por mês, tem que ter contato contínuo. E muita gente não tem condições de pagar um atendimento psicológico."
O Cada Minuto entrou em contato com a Secretaria Municipal de Saúde de Maceió (SMS) e com a Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas (Sesau) para saber o andamento de campanhas voltadas para o tema no Estado e na capital alagoana.
Sobre as ações do Janeiro Branco, a Assessoria de Comunicação da Sesau informou que “No Âmbito do SUS, as ações do Janeiro Branco são promovidas pelos municípios, que gerenciam a Atenção Básica a promovem ações nos postos de saúde e nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps)”. Já a Assessoria de Comunicação da Secretaria Municipal de Saúde da capital não repassou as informações pedidas sobre as campanhas do Janeiro Branco até o momento da publicação desta matéria.
*Estagiário sob a supervisão da editoria
