A suspensão do direito ao aborto pela Suprema Corte dos Estados Unidos provocou uma grande discussão em todo mundo. Em Alagoas, a ONG Centro de Defesa dos Direitos da Mulher avalia como um retrocesso a decisão, anunciada nesta sexta-feira (24).

Em entrevista ao CadaMinuto, a presidente da ONG, Paula Lopes, afirma que simbolicamente representa uma incerteza para os direitos já conquistados.

Confira a entrevista na íntegra: 

CM: Como avalia essa decisão do corte americana em derrubar o direito ao aborto?

PL: Avalio como um retrocesso nos direitos das mulheres, sabendo que os EUA são uma vitrine para todo o mundo, isso é simbolicamente para as mulheres do mundo uma incerteza sob direitos já conquistados, e abala todas nós.

CM: Qual impacto uma decisão dessa tem com a luta pelo direito ao aborto no Brasil?

PL: O Brasil, como um país que tem o Direito ao aborto em casos específicos, desde 1940, passa por um período difícil politicamente em que pautas como essa de direitos sexuais sexuais reprodutivos são o tempo todo questionadas. Por isso, é preciso estar sempre alerta sob novas ameaças de retirada de direitos, com esse retrocesso nós EUA, certente haverá quem cogite isso aqui. Mesmo sabendo que nossa realidade nua é crua é que mais de 70% das nossas crianças e adolescentes já sofreram algum tipo de abuso ou violência sexual e mesmo sabendo que a cada 12 minutos uma mulher é vítima de estupro no Brasil, e que o aborto clandestino mata principalmente as mulheres mais jovens, negras e pobres, porque não podem custear métodos melhores.

CM: Acredita que a discussão sobre o aborto ainda esteja longe de uma definição no Brasil?

PL: Acredito que tudo dependerá de como as próximas eleições serão conduzidas. Se o movimento de mulheres garantir espaço de discussão nas próximas eleições, se elegermos mais mulheres e políticos comprometidos com nossos direitos estaremos mais perto.

CM: O caso da menina 11 anos chama atenção para a violação dos direitos já conquistados?

PL: O caso da menina de 11 anos chama atenção pela exposição da desumanidade que acontece dia a dia com milhares de meninas no Brasil e no mundo. Apesar da ONU estabelecer uma vida sem violência sexual no rol de direitos das meninas, esse direito ainda está longe de acontecer, apesar do CNJ ter estabelecido um protocolo ano passado para orientar os magistrados e magistrados ao tratamento sem revitimizar durante a audiência, todos viram quem isso ainda acontece! Essas Violações de direitos acontecem quotidianamente , numa verdadeira via crucis, acompanhe comigo: a menina que sofre algum tipo de violência seja por estupro, abuso, negligência ou invisibilidade, como foi o caso dela, vai chegar no posto de saúde, onde passará por uma série de procedimentos de pré-natal ( que somente deveria passar quando fosse adulta), vai na delegacia para registrarem a denúncia, vai precisar contar novamente a história, vai ser questionada, vai ser confundida, vai ao IML fazer exames, vai sair da família e passar por um processo de abrigamento institucional, e ficar longe da família que por mais que seja ruim, talvez tenha algum afeto pela mãe, e vai chegar numa audiência, onde do alto da tribuna uma juiza, que talvez não tenha um mínimo de vivência, nem traquejo social vai perguntar se toda a tortura que assola aquela pequena vida pode "continuar mais um pouquinho..." É desumano, é doloroso, é monstruoso o que o Estado que foi o primeiro a não proteger, é o primeiro a punir. O Estado que deveria nos proteger é o primeiro a violar nossas Direitos.